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Liberalismo, socialismo e democracia (Daniel Aarão Reis Filho)
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Os homens nascem iguais e têm direito à Liberdade e à busca da Felicidade. Estas palavras, hoje banais, foram proferidas pela primeira vez há mais de duzentos anos.

Vieram nas asas das revoluções americana e francesa, em fins do século XVIII, e contribuíram para encorajar as gentes a construir os destinos de uma outra maneira.

Uma transformação revolucionária.

Em tempos pretéritos, as pessoas não nasciam iguais, ao contrário, eram naturalmente desiguais. Nem tinham direito à liberdade, restrita aos que mandavam e desmandavam. Quanto à felicidade, era bastante que se conformassem à Ordem vigente. Assim pensavam as elites e grande parte das sociedades. Era natural que assim fosse, porque sempre fora assim.

Mas as revoluções mudaram estas maneiras de ver a vida. E mudariam a História para sempre.

Entretanto, assustados com o alcance dos sonhos suscitados, alguns homens, de bem e de bens, tentaram logo impor limites. Liberdades e igualdades seriam usufruídas apenas em certos círculos — os que sabiam ler, os proprietários, homens e brancos. Na fabricação das primeiras Constituições liberais restabeleceramse privilégios que pareciam ter sido extintos para sempre.

Mas o mal estava feito, a maçã fora mordida, o vírus, conhecido, espalhara-se.

Trabalhadores, negros, mulheres, desvalidos, marginalizados, os azarados da vida, escrachados de todos os quadrantes, destrambelhados e pés-rapados, todos queriam o mesmo manjar. Como se não havendo mais reis, todos quisessem ser reis. No curso das próprias grandes revoluções apareceram os primeiros questionamentos: nós queremos também!

Os mais argutos perceberam o perigo que se formara. Aquelas ondas... não seria mais possível detê-las.

Em consequência, surgiram propostas alternativas: democráticas e socialistas. O poder não seria apenas para o povo, mas deveria ser por ele exercido, pelo povo. E a igualdade, queriam-na mais abrangente, cobrindo as demais dimensões da vida humana: o emprego, a segurança, a educação, a saúde, mesmo a sacrossanta propriedade haveria de ser coletiva. Era insuportável: todo o mundo queria tudo.

O longo século XIX foi a história destas lutas e nela tenderam a se associar democracia e socialismo. A democracia, efetiva, teria de ser socialista. O socialismo, autêntico, teria de ser democrático, ou não seria socialismo.

As pressões cresceram tanto que, mesmo entre os liberais, admitiu-se a necessidade de um processo, gradual que fosse, capaz de ampliar o acesso ao sufrágio e à participação nos negócios públicos. Ainda assim a democracia continuava ancorada nas propostas socialistas. Entre socialismo e democracia, um sinal de igualdade.

Veio então a I Grande Guerra, e, em seu âmbito, vieram as revoluções russas. Animadas por socialistas, marcadas, em seus inícios, por organizações radicalmente democráticas — os conselhos de trabalhadores e soldados, os sovietes.

Mas a democracia não vingou. Tradições, circunstâncias e opções levaram à formação de uma ditadura revolucionária. De fato, no âmbito do Império russo, não se sabia o que era democracia, nem tinham jamais existido instituições democráticas. Por outro lado, anos e anos de guerras, como sempre acontece, definiram estruturas politicas centralizadas, tirânicas. Finalmente, as escolhas do partido socialista bolchevique, temeroso de que instituições democráticas lhe roubassem o poder, fecharam com grossos ferrolhos o processo politico.

O socialismo soviético converteuse num socialismo de quartel. Militarizado, ditatorial. Os comunistas, como bem observou G. Orwell, tornaramse uma nova elite, mais iguais do que os demais.

Ao mesmo tempo, prosseguia a mutação do liberalismo, cada vez mais próximo da democracia e até de referências socializantes. Depois da II Guerra Mundial, travada contra a Besta nazista, em nome da democracia, da independência dos povos e da justiça social, o processo consolidouse. Na base do sufrágio universal, formou-se a democracia liberal, naturalizando a associação dos dois termos, como se tivessem, sempre, caminhado juntos. O que não impediria muitos liberais de apoiarem ditaduras, segundo as circunstâncias e os interesses.

Quanto ao sistema soviético, reproduziase, embora com cores próprias, na China, na Europa Central, em Cuba, construindo-se agora um novo sinal de igualdade entre socialismo e ditadura.

Em dois séculos, as mutações e as ironias da História.

O liberalismo clássico, elitista, antidemocrático e antipopular, insensível às demandas sociais, transformarase na democracia liberal, incorporando demandas democráticas e sociais, um liberalismo realmente existente.

O socialismo, na versão soviética, hegemônica ao longo do século XX, e embora realizando profundas reformas sociais e econômicas, converterase num mundo regido por Estados ditatoriais, poderosos, mas incapazes de seduzir.

Se houver um grão de verdade nestas reflexões, a reinvenção do socialismo no futuro depende, paradoxalmente, de uma bem orientada volta ao passado. No inventário de suas cicatrizes, os socialistas deverão resgatar o sinal de igualdade entre socialismo e democracia, precioso patrimônio cultural e politico e formosa tradição, forjada no século XIX e abandonada nas curvas dos tortuosos caminhos empreendidos pelo socialismo do século XX.

(DANIEL AARÃO REIS é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense)

Publicado em O Globo, em 06/06/2010.

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