Gato gato gato (Otto Lara Resende)
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Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro. O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida penumbra. Mas a presença do gato. O gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação.

Luminoso sol a pino e o imenso céu azul, calado, sobre o quintal. O menino pactuando com a mudez de tudo em torno — árvores, bichos, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas como um gás que se desprende.

Gato — leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato. Aquele ali, ocioso, lento, emoliente — em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girafa, girafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.

O pêlo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel — o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim — o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha.

Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songamonga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado com o silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais.

O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas.

Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore.

O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos — e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia.

O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura — como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente.

Por um momento, foi como se o céu desabasse de seu azul: duas rolinhas desceram vertiginosas até o chão. Beliscaram levianas um grãozinho de nada e de novo cortaram o ar excitadas,'para longe.

O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa, o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo.

Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor.

Ah, o estilingue distante — suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos.

O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol.

O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas.

O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica.

A casa sem aparente presença humana.

Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa-d'água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros. Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão.

Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa-d'água, farta, sua sede saciada.

Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo.

As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data.

Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno.

O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo — alvo fácil — o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar?

A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranqüila rodilha do gato. As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato. Gato — coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer.

O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul.

Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato — outro gato, o sempre gato — transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.

(Texto extraído do livro “O elo partido e outras histórias”, Editora Ática – São Paulo, 1994, pág. 35.)

http://www.releituras.com/olresende_gato.asp

OPINIÃO
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O (re)descobrimento, a independência e a proclamação da liberdade de um povo. Um Rio de Paz em Estado de Graça: o despertar de um novo tempo

Há muito tempo a cidade de Rio de Janeiro vem sendo chamada de cidade partida. Era praticamente impossível transitar livremente por suas diversas regiões sem antes consultar o mapa para saber se determinada área era zona de risco. “Favela”: palavra emblemática, marginal, que marginaliza e se coloca à margem do processo de evolução e desenvolvimento de uma cidade. Durante décadas esquecida e abandonada por sucessivas administrações, transformou-se em feudo – e porque não “capitania hereditária” - de donatários nada amigáveis. Traficantes que levavam dor e terror a moradores oprimidos, escravizados no direito a opinar e a sonhar.

O projeto das Unidades de Polícia Pacificadoras não se restringe apenas com a pacificação das distintas regiões de nossa cidade. É projeto mais amplo, que confunde-se com a nossa própria história: o (re)descobrimento de territórios fossilizados, que pararam no tempo que não parou. A independência de um povo oprimido pela lei do mais forte, onde alguns poucos intimidavam os dignos muitos. A proclamação da liberdade de um povo que permanecia inerte, mesmo consciente que o medo seria abolido.

Um dos grandes desafios que se anuncia é justamente conquistar a confiança do povo que mora nas favelas, das comunidades carentes. Um trabalho que não é responsabilidade apenas do governo, mas também da sociedade. Um dos exemplos de ação para isso, se estabelece na criação de oficinas profissionalizantes e culturais (arte, leituras, música, educação), permitindo àqueles que foram durante tanto tempo cerceados, de poderem conviver numa sociedade mais justa, fraterna e igual, com informação, profissão, diversão e dedicação a tudo isso.

Outro desafio é adquirir a adesão da sociedade civil como um todo, chamando esta a integrar esse processo que as UPPs se propõem. É vestir a camisa, dizer que “estamos juntos”, sendo a sociedade mais participativa e menos pragmática. É a sociedade não apenas assistir as ações, estando sempre preparada para criticar e colocar a culpa de tudo no governo. É entender que a sociedade compõe a mola propulsora, que irá democratizar todo o processo. Um exemplo de ação para isto, é o próprio processo seletivo da UPP Social, que convida a sociedade civil a ser não mais espectadora, mas agente de transformação. Um projeto que é ambicioso, desafiador – e recompensante – para aqueles que se propõem a isto.

(Este texto foi escrito por mim, como parte do processo seletivo para o projeto "UPP Social", do Governo do Estado do Rio de Janeiro)

O lulismo e Lula - o legado (Daniel Aarão Reis)
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Os mandatos de Lula terminaram, resta saber se a Era Lula terá se encerrado com eles. Para responder é necessária uma avaliação do que o lulismo deixou de mais substantivo e duradouro, ou seja, o seu legado.

Trata-se de difícil questão, impossível encontrar um consenso. Basta ver os diversos balanços realizados. Com os mesmos dados houve hipóteses e conclusões diferentes, quando não antagônicas. Um fato inegável e teimoso é a aprovação de Lula ao fim de oito anos de governo. Uma das últimas pesquisas cravou uma popularidade de 87%, maior que os índices de Michelle Bachelet, no Chile (84%), e de Nelson Mandela, na África do Sul (82%), um recorde mundial.

Qual o significado histórico da façanha?

Desprezada a rabugenta e antidemocrática ideia, encontradiça em arraiais de direita e de esquerda, de que isso se deve à capacidade de manipulação do líder e à idiotice das pessoas comuns, cabe tentar compreender o fenômeno.

A reflexão sobre vultos da História nacional, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, pode ser uma via para exercícios de comparação.

Getúlio Vargas liderou um processo que fez do Estado, sintonizado com as aspirações das classes mais dinâmicas do país, um fator maior de desenvolvimento e de reforma da sociedade. Arbitrava os conflitos e conciliava os interesses, o que pode ser feito pela força - inclusive recorrendo-se à tortura como política de Estado, como na ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945 - ou pelo voto, quando Getúlio, em 1950, voltou ao poder "nos braços do povo".

Quando as contradições políticas e sociais se acirraram e não foi mais possível agradar a gregos e troianos, Getúlio, ameaçado em 1954, saiu da vida e entrou na História.

Mas seu legado, o nacional-estatismo, ficou, embalando os sonhos das principais vertentes das esquerdas (o trabalhismo e o comunismo) e inquietando as elites. Permanece até hoje: basta conferir a Constituição de 1988 e a campanha presidencial de 2010.

Já a reconstrução do período juscelinista tem percorrido caminhos sinuosos. Os contemporâneos tiveram dele uma visão crítica: o sucessor, Jânio Quadros, sufragado com votação consagradora, tinha como símbolo uma vassoura: era preciso varrer a sujeira - da inflação e dos escândalos - deixada pelo governo anterior.

Entretanto, a memória social reconstruiu JK com a marca do desenvolvimento a todo custo, traduzida no slogan de fazer o país crescer cinquenta anos em cinco. A construção de Brasília, uma cultura produtivista, a primeira Copa do Mundo, o sorriso otimista, a superação do "complexo de vira-latas", um país que acreditava em si mesmo.

Este é o legado de JK. Presente nos ímpetos desenvolvimentistas posteriores: dos anos de chumbo e de ouro da ditadura civil-militar ao PAC de Lula-Dilma - um país para a frente, deixando para trás o atraso, fazendo explodir os índices de crescimento. O resto que se danasse, ver-se-ia depois, quando baixasse a poeira das obras.

Nessa perspectiva de análise, qual terá sido o legado do lulismo?

Lula manteve o nacional-estatismo e a conciliação de interesses. Como Vargas, foi "pai dos pobres e mãe dos ricos". Também conservou a ânsia desenvolvimentista de JK.

Mas o que distingue o lulismo é a construção de uma sociedade inclusiva, a realização de melhorias graduais no quadro de uma cultura de diálogo, de debate, de barganhas. A negação simultânea da catástrofe revolucionária e do conservadorismo reacionário. Um reformismo moderado que opera mudanças por acúmulos sucessivos e progressivos.

Trata-se de uma outra cultura política. Sem descartar as anteriores, superpondo-se a elas, define uma configuração inovadora.

Embora possa se iludir a respeito, exercitando a elevada autoestima, Lula é mais criatura do que criador desta cultura. A rigor, ela foi forjada ao longo de décadas por uma pressão silenciosa e anônima por cidadania.

Quando se terá iniciado esta tendência longa e profunda? Difícil determinar um marco preciso, num percurso tortuoso e ziguezagueante. As origens mais remotas estão nas grandes lutas travadas no âmbito da república inaugurada com a deposição de Vargas, em 1945, e que conheceram momentos de radicalização entre 1961 e 1964. Abafadas pela ditadura, tais demandas renasceram em 1967-1968 para serem novamente derrotadas, mas não vencidas. Depois do namoro de grande parte da sociedade com a ditadura, reconstruíram-se no apagar das luzes desta, contribuindo para o seu fim, entre 1979 e 1981. E continuaram sendo nutridas pelos sucessivos governos democráticos até desabrocharem com grande vigor nos dois governos Lula que, nessa linha interpretativa, são muito mais expressão do que causa de todo o processo.

Eis o legado construtivo e positivo do lulismo: diálogo, inclusão, cidadania, ingredientes essenciais da democracia.

O paradoxal nisso tudo é que a maior ameaça a essa cultura pode vir do próprio Lula, porque ele não desapareceu. Sua sombra e o ativismo compulsivo podem se tornar pesados, uma vez que a líderes poderosos costumam corresponder sociedades obedientes e acríticas, ou seja, nada democráticas. Enquanto as figuras de Vargas e Juscelino podiam se avantajar sem questionar o legado das culturas políticas associadas a suas lideranças, o mesmo não ocorre com Lula e o lulismo.

De fato, a afirmação e a consolidação do que há de mais promissor no legado de Lula passa pelo enfraquecimento de sua avassaladora presença política, algo difícil de se imaginar, considerando-se as características, a trajetória e o vigor remanescente do Cara.

Caberá à sociedade brasileira lidar com a questão. Se conseguir bem fazê-lo, a democracia agradecerá. Se não conseguir, o melhor do legado lulista poderá se perder.

Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da UFF

Nabuco e os crimes contra a Humanidade
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Em entrevista concedida ao jornal “Washington Post”, a presidente eleita Dilma Rousseff criticou a abstenção do Brasil na votação da resolução das Nações Unidas que condenava o Irã por violação dos direitos humanos. Há 125 anos, durante a campanha abolicionista, Joaquim Nabuco, cujo centenário de morte celebramos este ano, enfrentou problema semelhante e lhe deu resposta clara e pioneira.

Diante das dificuldades enfrentadas no país pelos defensores da abolição, Nabuco decidiu ampliar a arena de luta e buscar apoio na opinião pública europeia, sobretudo britânica. Viajou a Londres onde solicitou e obteve decidido apoio da Sociedade Britânica e Estrangeira para a Abolição da Escravidão. A decisão lhe custou caro. Segundo denunciou em discurso proferido na capital britânica em 1881, os escravistas brasileiros passaram a acusá-lo de encorajar uma intervenção moral da Europa em questões domésticas nossas, de revelar ao mundo uma desgraça que deveria ser cuidadosamente escondida. Acusavam-no, em outras palavras, de falta de patriotismo, se não de traição. Pecha semelhante, lembremo-nos, foi atribuída aos que, durante os governos militares, denunciavam no exterior os crimes da ditadura. Dizia-se, então, que os denunciadores estavam denegrindo o nome do país. A acusação atingiu Nabuco profundamente e dela procurou defender-se em várias ocasiões.

A escravidão, alegava, era um crime condenado pela civilização. Diríamos hoje, um crime contra a Humanidade. Combatê-la, elevar o Brasil ao nível de civilização já atingido por outros povos, não podia constituir ato impatriótico. Convocar a opinião internacional para nos auxiliar nessa luta era, antes, um serviço patriótico prestado à nação brasileira. Em “O abolicionismo” denunciou como um dos males da escravidão exatamente o ter ela corrompido nosso patriotismo colocando-o a serviço de um crime. Não admitia contradição entre nação e civilização. A nação realizava-se ao incorporar os valores civilizacionais. Era, em outros termos, a mesma argumentação de José Bonifácio em 1823. A escravidão, dizia o Andrada, agredia os valores do cristianismo e da civilização. Com ela não se podia construir um regime liberal nem uma nação.

Nabuco nisso também foi um pioneiro. A ideia de crimes contra a Humanidade, de crimes que extrapolam fronteiras e interesses nacionais, ganha cada vez mais aceitação. Uma das boas consequências da globalização é certamente a difusão cada vez mais ampla da noção de direitos humanos. O abolicionista certamente se sentiria vingado com a vitória de seu ponto de vista. Mesmo como diplomata, ele não admitiria tolerância ou condescendência com tais crimes sob qualquer justificativa, ideológica, política, pragmática, ou de defesa da soberania nacional.

Joaquim Nabuco seguramente concordaria com os termos das declarações de Dilma Rousseff sobre direitos humanos feitas à repórter do “Washington Post”.

José Murilo de Carvalho é historiador.

Publicado originalmente no jornal O Globo, em 12 de dezembro de 2010.


Crônica de um cotidiano que quase passou
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Um livro lido no ano passado continua na minha memória chama-se “Vida no Brasil” e foi escrito por um sujeito chamado Thomas Ewbank.

Ewbank era um americano que passou alguns meses no Brasil, em 1866. Suas anotações sobre o cotidiano da Corte se transformaram em livro, cujo subtítulo é “Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras”.

Por alguma razão, “Vida no Brasil” não é um livro lembrado com entusiasmo por gente como Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Hollanda, os inventores do Brasil. Há pouquíssimas referências à obra de Ewbank em seus principais livros. Eles preferem outros viajantes, como Saint-Hillaire e Debret (embora Freyre faça ressalvas em princípio a outros franceses, que costumam exagerar e mentir em seus relatos). Essa lacuna chama mais a atenção em “Sobrados e Mucambos”, livro de Freyre que trata especificamente do período em que Ewbank esteve no Brasil. Eles mencionam “Vida no Brasil” em suas obras, claro. Mas é sempre com parcimônia, ilustrando temas secundários e de maneira acessória.

É uma pena. O livro de Ewbank é um relato fantástico do cotidiano da capital do país em meados do século XIX. É o tipo de livro que pode ser escrito apenas por um estrangeiro, para quem tudo que nos parece normal e óbvio é estranho e diferente. É justamente por não estar inserido no cotidiano, por não estar acostumado a ver tudo aquilo todo dia, desde sempre, que as pequenas coisas lhe chamam a atenção.

Aquele era um momento importante na história do Brasil. O século XIX foi o da reeuropeização do país. Depois de dois séculos de isolamento, em que forjamos a base da nossa identidade nacional mesclando elementos europeus, negros, indígenas e, acessoriamente, asiáticos — herança da tradição navegadora portuguesa –, o Brasil insular voltava a ter contato com a civilização européia. E mudava rapidamente seus costumes, adotando conceitos e costumes inteiramente novos — como a cerveja que substituía o aluá, as casacas pretas quase onipresentes e o pão de trigo que botava a mandioca para escanteio. Ewbank não pode ter consciência desse processo em andamento; mas ao contar o que via, fornece dados importantes para a sua compreensão.

O melhor em “Vida no Brasil” é resultado do espanto de Ewbank diante das tradições religiosas do Brasil. A escravidão, por exemplo, não lhe parece hedionda: afinal, ele vinha de um país que tinha libertado seus negros havia pouco tempo. É por isso que, com exceção de menções feitas quase de passagem, não é o regime escravocrata no Brasil que chama a sua atenção, o fato de um Estado aceitar a servidão de um homem. Se algo lhe revolta não é propriamente o sistema jurídico: são os abusos dentro desse sistema. Apenas no final do livro se encontra uma condenação um pouco mais contudente à escravidão — mas dirigida principalmente aos donos de escravos que os exploram em excesso, especificamente os do Norte (que, curiosamente, mostram ainda lembranças claras da Revolta dos Malês, em seu quase respeito aos escravos muçulmanos), e não quanto ao regime jurídico que permitia que uma pessoa possuísse outra.

Se, por exemplo, menciona o fato de os mesmos monges beneditinos que rezam as mais belas missas do Brasil terem centenas de escravos em suas fazendas, não é exatamente por indignação contra a escravidão, mas por notar a ironia religiosa e a contradição no discurso. Seu alvo não é a escravidão: é o catolicismo. Isso não impede, no entanto, que ele note as deformidades físicas que o trabalho forçado inflige aos negros, nem tampouco a beleza das escravas, ou ainda que não se espante com os castigos infligidos.

Se o fato de ser criado dentro de uma tradição que tolera a escravidão lhe torna complacente em relação a exploração dos escravos brasileiros, com a religião a conversa é outra. Ewbank foi criado em um país definido pela tradição puritana.

É isso que torna o seu livro realmente interessante: seu espanto diante da tradição católica brasileira — ritualística, hipócrita, sensual e exuberante — e o modo como ela se insere de maneira quase onipresente no cotidiano do brasileiro. O catolicismo pátrio, principalmente pelo que tem de teatral e obscurantista, fascina Ewbank: tudo aquilo é absolutamente exótico para ele. E o americano é perspicaz o suficiente para perceber a extensão da influência da Igreja na definição do caráter nacional. Ewbank acaba fazendo um relato preciso da relação do brasileiro com a religião e com a sociedade.

Aqueles eram outros tempos. Procissões se sucediam, assim como paradas, e as pessoas beijavam estandartes e bandeiras com devoção ou, mais provavelmente, respeito a uma conjuntura social. Caixas de esmolas se espalhavam pelas ruas. Em todas as igrejas, as pessoas podiam pegar suas medidas dos santos e fingir uma devoção que, já ali, misturava doses semelhantes de fé, hipocrisia e oportunismo. Os padres que não fugiam com suas fiéis tinham uma importância enorme em suas comunidades. Superstições que ainda hoje sobrevivem tinha uma força quase inimaginável.

Ewbank estava no Brasil quando se iniciou aqui o culto a Santa Prisciliana. Ele descreve com riqueza de detalhes o processo que criou, a seu ver artificialmente, um novo objeto de culto. Não esconde a indignação com o que julga, acertadamente, ser um grande embuste; mas faz questão de, antes, descrever o que se passa.

É óbvio, desde as primeiras páginas do livro, que o olhar de Ewbank não é imparcial. Ele é, definitivamente, um protestante americano. No Rio de Janeiro de 1866, Ewbank poderia passar perfeitamente por um bom inglês, com suas roupas escuras e sua incapacidade de se misturar ao povo local, demonstrando mesmo um certo horror pela barbárie que presenciava ao mesmo tempo em que é sensibilizado pela hospitalidade brasileira. Definitivamente, o catolicismo brasileiro não era “limpo” como o puritanismo americano. Como bom anglo-saxão, Ewbank mostrava total falta daquela qualidade plástica portuguesa que possibilitou esta que é a mais bem sucedida civilização européia nos trópicos.

Mas mesmo parcial, ou talvez por isso, Ewbank era dono de um olhar acurado. Homem de boa cultura clássica, é capaz de perceber as origens orientais em tradições brasileiras como o entrudo, que daria origem ao carnaval. A arquitetura colonial privada — que naquele momento de crescente urbanização começava a desaparecer, com rótulas e gelosias nas janelas dando lugar a vidraças e venezianas — lhe chama a atenção, e ganha em sua comparação com o amor setentrional à madeira e ao estuque. Mas mesmo admitindo a superioridade da arquitetura brasileira, ele não deixa de se horrorizar com um dos principais traços da nossa cultura: o total descaso com a rua, com a comunidade. Um traço que define a personalidade do brasileiro e compreendido com facilidade por Ewbank, ao notar que enquanto os americanos tinham calhas que traziam as águas das chuvas dos telhados para as calçadas, as casas brasileiras simplesmente jogavam a água no meio da rua, e os transeuntes que se virassem como podiam.

Quando voltou para os Estados Unidos, Ewbank levou consigo uma preguiça. O animal morreu durante a viagem. É bem possível que tenha morrido de sede: preguiças não bebem água. E esse fato simples talvez mostre a natureza de uma relação norte/sul que se perpetua até os dias de hoje. Ewbank era capaz de ver o que estava à sua frente, mas era incapaz de compreender, de verdade. Mesmo assim, o livro que escreveu a partir de sua experiência na terra das palmeiras é um relato importante da rotina na capital do império brasileiro. E, o que talvez seja mais importante, permite uma comparação razoavelmente precisa e fornece elementos importantes para que se compreenda um passado que, ainda hoje, continua no Brasil moderno.

Originalmente publicado em 22 de maio de 2007 @ 0:00

Retirado de
http://www.rafael.galvao.org/2010/08/cronica-de-um-cotidiano-que-quase-passou/#comment-22252

A defesa da presença do Estado na economia retorna à pauta
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POLÍTICA

De volta para o futuro

A defesa da presença do Estado na economia retorna à pauta

RESUMO

Posta em xeque nos anos 80 e 90, a política do bem-estar social e da forte presença do Estado na economia volta ao debate em ensaio de Tony Judt, que aponta danos sociais decorrentes da redução do Estado nos EUA e na Europa, e em livro sobre Eisenhower, presidente republicano que teria contribuído para o New Deal democrata.

RAFAEL CARIELLO

MAL ECLODIU, a crise de 2008 forçou o governo dos EUA a fazer pesados investimentos em áreas cruciais da economia, como o setor bancário e a indústria automobilística. Para muitos observadores, assistia-se à volta de um modelo intervencionista que parecia superado desde a chegada ao poder do republicano Ronald Reagan, em 1980.

A mesma débâcle agravou, nos meses seguintes, os deficits orçamentários recordes dos países europeus, logo forçados a cortar gastos e benefícios públicos. Há quem avalie que, em consequência dessas decisões, o próprio Estado de bem-estar social encontra-se em risco. As reformas liberalizantes advogadas por Reagan e pela ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher teriam por fim alcançado a Europa continental.

Como se pode ver, essas análises são contraditórias -e apressadas. Buscam compreender o momento atual nos termos das duas grandes ondas político-ideológicas do século 20, hegemônicas.

A história desses dois modelos de intervenção estatal -o social-democrata, entre as décadas de 30 e 70, e o liberal, nos dois decênios finais do século- é narrada pelo cientista social britânico Tony Judt (1948-2010) no último livro que publicou em vida, "Ill Fares the Land" (algo como "o mal consome a terra", título retirado de um verso do poeta Oliver Goldsmith).

Desde a Grande Depressão, e com mais força a partir da Segunda Guerra Mundial, a social-democracia conquistou o apoio de políticos da centro-direita à centro-esquerda, nos EUA e na Europa. Com a exceção de grupos radicais nos dois extremos do espectro ideológico, todos pareciam concordar quanto à necessidade de o Estado se fazer presente em amplos setores da economia, do transporte público à siderurgia, sem abrir mão da democracia representativa.

Por décadas, o modelo funcionou bem, até entrar em crise, nos anos 70. Nos dois decênios finais do século 20, a palavra de ordem era abrir espaço para o mercado. Reduzir o Estado ao mínimo, retirando-o não só da atividade produtiva mas também, em muitas áreas, de seu papel regulador.

Intervenções estatais passaram a ser responsabilizadas por males sociais e econômicos de toda espécie -invertendo a lógica antiliberal que surgira com a crise da década de 30. Nenhum dos dois modelos "puro-sangue" parece mais angariar simpatias gerais e irrestritas -embora estas ainda se inclinem, no julgamento de Judt, para um excessivo antiestatismo.

De todo modo, o que no passado parecia pertencer ao domínio inexorável da história, a um processo de desenvolvimento linear, passa hoje à esfera da técnica e da política. O que as narrativas contraditórias do pós-crise nos EUA e na Europa demonstram é que a presença do Estado na economia e na prestação de serviços de segurança social está em disputa, sujeita a ajustes de grau, mas não de natureza.

Tony Judt toma partido nesse embate e constrói, em "Ill Fares the Land" [Penguin USA, 256 págs., R$ 47], um sofisticado libelo contra os excessos da desregulamentação e do desmonte do Estado, ao sair em defesa da social-democracia e dos serviços de proteção social.

Sua estratégia é apresentar cada argumento como uma síntese pragmática e moderada dos embates ideológicos do passado. "Conseguimos nos libertar da crença de meados do século 20 -nunca universal, mas certamente bastante difundida- de que o Estado é possivelmente a melhor resposta para qualquer problema. Agora precisamos nos livrar da noção oposta", ele diz. A de que "o Estado é -sempre e por definição- a pior opção possível".

"Se não fomos capazes de aprender nada mais com o século 20, devíamos ao menos ter entendido que quanto mais perfeita a resposta [a nossos problemas], mais terríveis e assustadoras foram as suas consequências."

"Ill Fares the Land" pretende apresentar, a uma geração que não viveu os traumas da Grande Depressão e da Segunda Guerra, as razões que permitiram tornar quase consensual a defesa da forte presença do Estado em diversos setores da economia -bem como a criação de amplos sistemas públicos de educação, saúde e segurança social.

Para Judt, os líderes e os burocratas americanos e europeus logo compreenderam, com o fim da guerra, que era preciso a todo custo evitar os níveis inauditos de insegurança social e econômica enfrentados desde a crise de 1929 e nos anos seguintes, que os conduziram até o maior conflito militar da história.

Foi essa sensação de medo que fomentou o nazismo, lembra Judt. Os vencedores da guerra, dos dois lados do Atlântico, compreenderam o que era preciso fazer para impedir o seu ressurgimento. É nesse contexto que surge o Estado de bem-estar social, sociedades de classe média e sistemas de "seguros" públicos contra infortúnios.

O mesmo se aplica aos EUA, sempre ciosos em prestar vênias ao liberalismo econômico e à livre-iniciativa. Entre o New Deal de Roosevelt, nos anos 30, e a Presidência de Lyndon Johnson (1963-69) -que se atribuiu o objetivo de pôr fim à miséria no país mais rico do planeta-, a forte presença do Estado em setores estratégicos e as políticas promotoras de relativa igualdade social apresentaram ao mundo o "american way of life". A típica família de classe média norte-americana dos anos 50 e 60 posa em sua casa de subúrbio para um retrato de época.

O processo não foi freado nem mesmo sob o único governo republicano (1953-1961) a interromper as quase quatro décadas de proeminência do Partido Democrata na política norte-americana.

"Foi um presidente republicano, Dwight Eisenhower, quem autorizou o gigantesco projeto das estradas interestaduais, supervisionado pelo governo federal", argumenta o historiador, ao se referir ao pesado investimento em infraestrutura de que a iniciativa privada não teria sido capaz, sozinha, de realizar. "Apesar de toda a mesura retórica feita à competição e aos livres mercados, a economia americana naqueles anos dependia largamente de proteção contra a competição estrangeira, bem como de padronização, regulação, subsídios, ajustes de preços e garantias governamentais."

O leitor conservador e desconfiado dos argumentos de um "socialista" britânico pode conferir a justeza da descrição em "Going Home to Glory - A Memoir of Life with Dwight D. Eisenhower, 1961-1969" [Simon & Schuster, 336 págs., R$ 63], escrito por David Eisenhower e Julie Nixon Eisenhower. Os insuspeitos autores, casados um com outro, netos dos conhecidos ex-presidentes republicanos, compõem uma memória dos anos de aposentadoria do general que liderou os Aliados contra o nazifascismo.

Entre partidas de bridge e golfe, o ex-presidente se esforça, segundo a narrativa de seus herdeiros, para impor uma linha moderada ao Partido Republicano dos anos 60. "A não ser em assuntos morais e ciências exatas, posições radicais estão sempre erradas", defende Eisenhower.
Os amantes da política americana encontram na obra a descrição do empenho do general para fazer de seu irmão Milton o candidato republicano à sucessão de Johnson. "Seu principal problema", no entanto, "era o comprometimento político ambíguo", diziam os opositores mais conservadores. Milton, que trabalhara sob o comando de Roosevelt, "havia contribuído de maneira entusiasmada com o New Deal". Por razões mais ou menos voluntárias, também o seu irmão dera continuidade àquela obra.

Como hábil advogado de sua causa, Tony Judt é capaz de reconhecer exageros na intervenção estatal. As opções estatizantes de meados do século nem sempre conduziram a bons resultados, admite ele. O crescente controle e "planificação" da vida em sociedade são seus principais exemplos: intervenções urbanísticas autoritárias, conjuntos habitacionais impessoais, intromissão ineficiente em setores da economia que seriam mais bem servidos pela iniciativa privada.

Parece hoje inacreditável que o Estado britânico tenha se encarregado, por décadas, até da venda de café e sanduíches servidos em estações ferroviárias (não seria justo, no entanto, responsabilizar a burocracia estatal pela má qualidade da comida no Reino Unido).

Mas nada se compara, segundo o historiador, às distorções promovidas desde os anos 1980 pelos governos "mercadistas". Judt recorre a estudos estatísticos para fazer um elogio da igualdade social, alcançada sobretudo nos países com maior intervenção estatal, carga tributária e gasto público.

Quanto maior a desigualdade de renda, maior a incidência de problemas de saúde e patologias sociais. "Há uma razão para o fato de os índices de mortalidade infantil, expectativa de vida, criminalidade, população carcerária, doença mental, desemprego, obesidade, subnutrição, gravidez na adolescência, uso de drogas, insegurança econômica, acúmulo de dívidas e ansiedade serem piores nos EUA e no Reino Unido do que na Europa continental."

Eis, de acordo com Tony Judt, os males que consomem a terra. Antes de morrer, no auge de sua produtividade, um dos principais acadêmicos do século 20 deixou como herança um manifesto sobre a necessidade de contê-los, com a ajuda do Estado, de maneira moderada e cautelosa. "Avanços incrementais a partir de circunstâncias insatisfatórias são o melhor que podemos esperar, e provavelmente tudo o que devemos procurar."

O que as narrativas contraditórias do ?pós-crise nos EUA e na Europa demonstram é que a presença do Estado na economia e na prestação de serviços ?de segurança social ?está em disputa

Como hábil advogado de sua causa, Tony Judt é capaz de reconhecer exageros na intervenção estatal. As opções estatizantes de meados do século nem sempre conduziram a bons resultados.

(Retirado da Folha de São Paulo, 12/12/2010, Ilustríssima)
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Os limites do ativismo político nas redes sociais
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SOCIEDADE

A revolução não será tuitada

Os limites do ativismo político nas redes sociais

RESUMO

O ativismo em redes sociais como o Facebook e o Twitter deriva de vínculos fracos entre seus participantes, que não correm riscos reais como os militantes tradicionais, unidos por vínculos fortes, em ações hierarquizadas e de alto risco, tais como as organizadas durante a campanha pelos direitos civis nos EUA dos anos 60.

MALCOLM GLADWELL
tradução PAULO MIGLIACCI

ÀS QUATRO E MEIA da tarde da segunda-feira 1º/2/1960, quatro universitários se sentaram ao balcão da lanchonete de uma loja Woolworth's no centro de Greensboro, na Carolina do Norte. Eram calouros na North Carolina A&T, faculdade para negros localizada a pouco mais de 1 km dali.

"Um café, por favor", disse um deles, Ezell Blair, à garçonete.

"Não atendemos crioulos aqui", ela respondeu.

O comprido balcão em L comportava 66 pessoas sentadas; numa das pontas, comia-se de pé. Os assentos eram para os brancos. A área onde se comia de pé era para os negros. Outra funcionária, uma negra encarregada da estufa, tentou convencê-los a sair: "Vocês estão sendo burros, seus ignorantes!". Eles não se mexeram.

Por volta das cinco e meia as portas principais da loja foram fechadas. Os quatro continuaram lá. Por fim, saíram por uma porta lateral. Do lado de fora, formara-se uma pequena multidão, incluindo um fotógrafo do jornal "Record", de Grensboro. "Volto amanhã, com o A&T College inteiro", disse um dos universitários.

Na manhã seguinte, o protesto havia se expandido e o grupo somava 27 homens e quatro mulheres, em grande parte do mesmo alojamento dos quatro manifestantes originais. Os homens estavam de terno e gravata. Todos levaram material e ficaram no balcão, estudando. Na quarta, veio a adesão dos alunos do colégio "para crioulos" de Greensboro, a Dudley High, e o número de manifestantes subiu a 80. Na quinta, já eram 300, incluindo três brancas, do campus local da Universidade da Carolina do Norte.

No sábado, o protesto contava 600 pessoas, espalhadas pelas calçadas em torno da loja. Adolescentes brancos assistiam, acenando com bandeiras da Confederação.1 Alguém soltou um rojão. Ao meio-dia, chegou o time de futebol americano da A&T. "Lá vêm os baderneiros", berrou um dos estudantes brancos.

Na segunda seguinte, o protesto já havia chegado a Winston-Salem, a 40 km dali, e Durham, a 80 km. No dia seguinte, veio a adesão dos alunos do Fayetteville State Teachers College e do Johnson C. Smith College, em Charlotte, seguidos, na quarta, pelos alunos do St. Augustine's College e da Universidade Shaw, em Raleigh. Na quinta e na sexta, o protesto atravessou as divisas do Estado e novas manifestações surgiram em Hampton e Portsmouth, na Virgínia; em Rock Hill, na Carolina do Sul; e em Chattanooga, no Tennessee. No final do mês, manifestações semelhantes estavam sendo realizadas em todo o sul dos Estados Unidos, chegando até o Texas, no oeste.

FEBRE

"Perguntei a cada um dos estudantes que encontrei como tinha sido o primeiro dia de protesto em seu campus", escreveu o cientista político Michael Waltzer ?em artigo na revista "Dissent". "A resposta foi sempre a mesma: 'Foi uma febre. Todo mundo queria participar'."
Por fim, cerca de 70 mil estudantes aderiram. Milhares deles foram detidos, e outros tantos se radicalizavam. Esses acontecimentos do começo dos anos 60 se tornaram uma guerra dos direitos civis que engolfou o sul dos Estados Unidos até o final da década -e tudo aconteceu sem e-mail, mensagens de texto, Facebook ou Twitter.

Dizem que o mundo passa por uma revolução. As novas ferramentas de redes sociais reinventaram o ativismo social. Com Facebook, Twitter e que tais, a relação tradicional entre autoridade política e vontade popular foi invertida, o que facilita a colaboração mútua e a organização dos desprovidos de poder e dá voz às suas preocupações.

REVOLUÇÃO VIA TWITTER

Quando 10 mil pessoas saíram às ruas na Moldova, no leste europeu, segundo trimestre de 2009, em protesto contra o governo comunista, a ação ganhou o nome de revolução via Twitter, por causa dos meios utilizados para arregimentar os manifestantes.
Meses depois, quando protestos estudantis abalaram Teerã, o Departamento de Estado americano tomou a providência inusual de solicitar ao Twitter que suspendesse uma pausa programada para manutenção do site, pois o governo não desejava que uma ferramenta tão vital estivesse inativa no auge das manifestações. "Sem o Twitter, o povo do Irã não se teria sentido capaz e confiante o bastante para sair em defesa da liberdade e da democracia", escreveu o ex-assessor de segurança nacional Mark Pfeifle, clamando para que o Twitter ganhasse o Prêmio Nobel da Paz.

Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. Os guerreiros do Facebook entram na internet para pressionar por mudanças. "Vocês são a nossa grande esperança", disse James Glassman, ex-alto funcionário do Departamento de Estado, a uma plateia de ciberativistas em recente conferência patrocinada por Facebook, AT&T (companhia telefônica), Howcast (site de vídeos), MTV e Google.

Sites como o Facebook, disse Glassman, "oferecem aos EUA uma considerável vantagem competitiva diante dos terroristas. Algum tempo atrás, eu disse que 'a Al Qaeda está jantando a gente na internet'. Já não é mais assim. A Al Qaeda continua parada na Web 1.0. A internet agora é interatividade e conversação".

CRÍTICA

São alegações fortes e intrigantes. Que importa quem janta quem na internet? As pessoas que estão no Facebook são mesmo a nossa grande esperança? Quanto à chamada revolução via Twitter na Moldova, Evgeny Morozov, pesquisador na Universidade Stanford que vem sendo um dos mais persistentes críticos do evangelismo digital, aponta que a importância do Twitter é quase nula na Moldova, onde existem pouquíssimas contas desse serviço.

E o que aconteceu lá tampouco parece ter sido uma revolução, especialmente porque as manifestações -como sugeriu Anna Applebaum em artigo no "Washington Post"- na verdade podem ter sido uma encenação organizada pelo governo. (Num país paranoico com o revanchismo romeno, os manifestantes hastearam uma bandeira da Romênia na sede do Parlamento.)

Já no caso do Irã, as pessoas que usaram o Twitter para comentar as manifestações viviam quase todas no Ocidente. "É hora de esclarecer o papel do Twitter nos acontecimentos do Irã", escreveu Golnaz Esfandiari meses atrás, na revista "Foreign Policy". "Em resumo: no Irã, não houve revolução via Twitter."

O elenco de blogueiros proeminentes, como Andrew Sullivan, que defendeu o papel da rede social no Irã, acrescentou Esfandiari, não entendeu direito a situação. "Jornalistas ocidentais que não conseguiam -ou nem mesmo tentavam- se comunicar com gente no Irã simplesmente percorriam a lista de 'tweets' em inglês, contendo a tag #iranelection", 2 escreveu ela. "Enquanto isso, ninguém parece ter se perguntado por que pessoas que supostamente tentavam coordenar os protestos no Irã não estariam se comunicando em farsi, mas em outro idioma".

Parte dessa grandiloquência é previsível. Inovadores tendem ao solipsismo. Volta e meia se empenham em enquadrar em seus novos modelos os fatos e experiências mais díspares.

Como escreveu o historiador Robert Darnton, "as maravilhas da tecnologia de comunicação no presente produziram uma falsa consciência sobre o passado -e até mesmo a percepção de que a comunicação não tem história, ou nada teve de importante a considerar antes dos dias da televisão e da internet".

ENTUSIASMO

Mas há mais um fator em jogo nesse desproporcional entusiasmo em relação às redes sociais. Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de sublevação social na história dos EUA, parece que esquecemos o que é ativismo.

No começo dos anos 60, Greensboro era o tipo do lugar onde a insubordinação racial era rotineiramente reprimida com violência. Os quatro primeiros universitários a se sentar ao balcão reservado aos brancos estavam apavorados. "Se alguém tivesse chegado por trás de mim e gritado 'bu', acho que eu cairia no chão", disse um deles mais tarde.

No primeiro dia, o gerente notificou o chefe de polícia, que imediatamente enviou dois policiais para a loja. No terceiro dia, um grupo de brutamontes brancos apareceu na lanchonete e se postou ameaçadoramente atrás dos manifestantes, proferindo epítetos como "crioulo de cabelo ruim". Um líder local da Ku Klux Klan apareceu. No sábado, enquanto a tensão crescia, alguém telefonou e deu um alarme falso de bomba e a loja teve de ser evacuada.

Os perigos eram mais claros no Mississippi Freedom Summer Project de 1964, outra campanha pioneira do movimento pelos direitos civis. O Student Nonviolent Coordinating Committee recrutou centenas de voluntários não remunerados no norte dos EUA, quase todos brancos, para lecionar nas Freedom Schools, alistar eleitores negros e promover os direitos civis no sul profundo.

"Ninguém pode ir sozinho a lugar nenhum, muito menos de carro e à noite", eram as instruções dadas aos voluntários. Poucos dias depois de chegarem ao Mississippi, três deles -Michael Schwerner, James Chaney e Andrew Goodman- foram sequestrados e assassinados; até o final daquele verão, 37 igrejas negras seriam incendiadas e dezenas de casas usadas como abrigos foram atacadas com bombas; voluntários foram espancados, alvejados e perseguidos por picapes repletas de homens armados. Um quarto dos participantes do programa desistiram. Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles.

COMPROMISSO

O que leva uma pessoa a esse tipo de ativismo? Doug McAdam, sociólogo na Universidade Stanford, comparou os desertores do programa Freedom Summer com os que optaram por ficar, e descobriu que a diferença crucial, ao contrário do que se poderia esperar, não era o fervor ideológico. "Todos os inscritos -tanto os que ficaram quanto os que desistiram- estavam altamente comprometidos com a causa e eram partidários articulados das metas e valores do programa", concluiu.

O fator decisivo foi o grau de conexão pessoal entre a pessoa e o movimento pelos direitos civis. Pedia-se a todos os voluntários que fornecessem uma lista de contatos pessoais -as pessoas que desejavam manter a par de suas atividades-, e assim a probabilidade de ter amigos que também estivessem indo ao Mississippi era bem mais alta entre os que ficaram do que entre os que abandonaram o programa. O ativismo de alto risco, concluiu McAdam, é um fenômeno de "vínculos fortes".

O padrão se repete em boa parte de casos. Um estudo sobre as Brigate Rosse [Brigadas Vermelhas], grupo terrorista italiano dos anos 70, constatou que 70% de seus recrutas já tinham pelo menos um grande amigo na organização. O mesmo se aplica aos homens que aderiram aos Mujahideen do Afeganistão. Até mesmo manifestações revolucionárias que parecem espontâneas, como as que conduziram à queda do Muro de Berlim, na Alemanha Oriental, são, em seu âmago, fenômenos de vínculos fortes.

O movimento oposicionista da Alemanha Oriental consistia em centenas de grupos, cada qual formado por cerca de uma dúzia de membros. Cada grupo tinha contato limitado com os demais: na época, apenas 13% dos alemães orientais tinham telefone. Tudo o que sabiam era que, nas noites de segunda, diante da igreja de São Nicolau, no centro de Leipzig, as pessoas se reuniam para expressar sua ira contra o Estado. E o determinante primário daqueles que compareciam eram os "amigos críticos" -quanto mais amigos críticos ao regime uma pessoa tivesse, maior a probabilidade de adesão ao protesto.

LIGAÇÕES

Portanto, um fato crucial sobre os quatro calouros que foram à lanchonete segregada de Greensboro -David Richmond, Franklin McCain, Ezell Blair e Joseph McNeil- eram as ligações mútuas que mantinham. McNeil dividia o quarto com Blair no alojamento da A&T. No andar de cima, Richmond dividia o quarto com McCain; e Blair, Richmond e McCain foram alunos da Dudley High School.

Os quatro levavam cerveja às escondidas para o alojamento e conversavam noite afora, no quarto de Blair e McNeil. Tinham na memória o assassinato de Emmett Till, em 1955; o boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, no mesmo ano; e o confronto em Little Rock, no Arkansas, em 1957.

Foi McNeil que apareceu com a ideia do protesto na Woolworth's. Discutiram o assunto por quase um mês. Um dia, McNeil entrou no quarto e perguntou aos amigos se estavam prontos.

Houve uma pausa e McCain disse, de um jeito que só funciona entre amigos que passaram longas madrugadas conversando: "Vocês vão arregar ou vamos em frente?". Ezell Blair tomou coragem para pedir aquele café, no dia seguinte, porque estava na companhia de seu colega de quarto e de dois grandes amigos desde o ensino médio.

VÍNCULOS FRACOS

O ativismo associado às redes sociais nada tem em comum com isso. As plataformas dessas redes são construídas em torno de vínculos fracos. O Twitter é uma forma de seguir (ou ser seguido por) pessoas que talvez nunca tenha encontrado cara a cara. O Facebook é uma ferramenta para administrar o seu elenco de conhecidos, para manter contato com pessoas das quais de outra forma você teria poucas notícias. É por isso que se pode ter mil "amigos" no Facebook, coisa impossível na vida real.

Sob muitos aspectos, isso é maravilhoso. Há força nos vínculos fracos, como observou o sociólogo Mark Granovetter. Nossos conhecidos -e não nossos amigos- são a nossa maior fonte de novas ideias e informações. A internet nos permite explorar a potência dessas formas de conexão distante com eficiência maravilhosa.

É sensacional para a difusão de inovações, para a colaboração interdisciplinar, para integrar compradores e vendedores e para as funções logísticas das conquistas amorosas. Mas vínculos fracos raramente conduzem a ativismo de alto risco.

VIRTUDES

Em um livro chamado "The Dragonfly Effect - Quick, Effective, and Powerful Ways to Use Social Media to Drive Social Change" [O Efeito Libélula - Maneiras Rápidas, Efetivas e Poderosas de Utilizar Redes Sociais para Promover Mudanças Sociais, ed. Jossey-Bass], o consultor de negócios Andy Smith e Jennifer Aaker, professora na escola de admininistração de empresas de Stanford, contam a história de Sameer Bhatia, jovem empresário do Vale do Silício que um dia descobriu estar sofrendo de leucemia mielálgica aguda. O caso serve como perfeita ilustração sobre as virtudes das redes sociais.

Bhatia precisava de um transplante de medula óssea, mas não encontrou doador entre seus parentes e amigos. As chances seriam maiores caso o doador tivesse sua etnia, e havia poucos doadores do sul da Ásia no banco de dados de medula óssea americano.

Por isso, o sócio de Bhatia enviou um e-mail no qual explicava o problema do amigo a mais de 400 de seus conhecidos, que por sua vez o encaminharam a seus contatos; páginas de Facebook e vídeos no YouTube foram criados para a campanha Help Sameer. Por fim, quase 25 mil novos doadores se inscreveram no banco de dados e Bhatia encontrou um compatível com ele.

Mas como a campanha conseguiu a adesão de tanta gente? Porque não pedia nada de mais aos participantes. É a única forma de conseguir que alguém que você não conhece de verdade faça alguma coisa em seu benefício. Dá para conseguir que milhares de pessoas se inscrevam como doadores porque fazê-lo é facílimo. Basta enviar uma amostra simples de material genético -no altamente improvável caso de que a medula óssea do doador seja compatível com alguém que precise- passar algumas horas no hospital.

Doar medula óssea não é trivial. Mas não envolve risco financeiro ou pessoal; não implica passar um verão inteiro sendo perseguido por picapes repletas de homens armados. Não requer confronto com normas e práticas sociais arraigadas. Na verdade, é o tipo do engajamento que só traz elogios e reconhecimento social.

DISTINÇÃO

Os evangelistas das redes sociais não compreendem essa distinção; parecem acreditar que um amigo de Facebook e um amigo real são a mesma coisa, e que se inscrever em uma lista de doadores no Vale do Silício, hoje, é ativismo no mesmo sentido que pedir um café num restaurante segregado de Greensboro em 1960.

"As redes sociais são especialmente eficazes para reforçar a motivação", escreveram Aaker e Smith. Mas não é verdade. As redes sociais são eficazes para ampliar a participação -mas reduzindo o nível de motivação que a participação exige.

A página da Save Darfur Coalition no Facebook tem 1.282.339 membros, cuja doação média é de nove centavos de dólar per capita. A segunda maior entidade de assistência a Darfur no Facebook tem 22.073 membros, e suas doações per capita são de 35 centavos de dólar. A Help Save Darfur tem 2.797 membros, que doaram, em média, 15 centavos de dólar.

Um porta-voz da Save Darfur Coalition disse à revista "Newsweek" que "não avaliamos necessariamente o valor de alguém para o movimento com base nos montantes doados. Este é um mecanismo poderoso para promover o envolvimento de uma população crítica.

Eles informam a comunidade, participam de eventos, fazem trabalho voluntário. Não é algo que se possa medir por números".

Em outras palavras, o ativismo no Facebook dá certo não ao motivar pessoas para que façam sacrifícios reais, mas sim ao motivá-las a fazer o que alguém faz quando não está motivado o bastante para um sacrifício real. Estamos muito longe do balcão da lanchonete de Greensboro.

CAMPANHA MILITAR

Os estudantes que participaram de protestos no sul dos EUA nos primeiros meses de 1960 descreveram o movimento como "uma febre". Mas o movimento dos direitos civis tinha mais de campanha militar que de contágio.

No final dos anos 50, 16 protestos semelhantes haviam sido organizados em diversas cidades sulistas, 15 dos quais formalmente coordenados por organizações de direitos civis como a NAACP [sigla em inglês da Associação Nacional para o Progresso da População de Cor] e a CORE [sigla em inglês de Congresso da Igualdade Racial]. Possíveis locais para protestos foram mapeados. Traçaram-se planos. Ativistas do movimento promoveram sessões de treinamento e retiros com potenciais participantes.

Os quatro de Greensboro surgiram como produto desse trabalho de base: eram membros do Conselho da Juventude da NAACP. Tinham fortes ligações com o diretor da seção local da organização. Foram informados sobre a onda anterior de protestos em Durham, e participaram de uma série de reuniões do movimento em igrejas ativistas.

Quando os protestos se espalharam pelo sul a partir de Greensboro, a difusão não ocorreu de modo aleatório. Os protestos surgiram em cidades que já tinham células do movimento -núcleos de ativistas dedicados e treinados, prontos para converter a "febre" em ação.

ALTO RISCO

O movimento dos direitos civis era ativismo de alto risco. Era também, e isso é importante, ativismo estratégico: um desafio ao establishment, montado com precisão e disciplina. A NAACP era uma organização centralizada, com comando em Nova York, segundo procedimentos operacionais altamente formalizados.

Na Southern Christian Leadership Conference, Martin Luther King Jr. (1929-68) exercia inquestionável autoridade. A igreja negra tinha posição central no movimento e, como aponta Aldon Morris em seu "The Origins of the Civil Rights Movement", esplêndido estudo publicado em 1984, mantinha uma divisão de tarefas cuidadosamente demarcadas, com diversos comitês permanentes e grupos disciplinados.

"Cada grupo tinha uma missão definida e coordenava suas atividades por meio de estruturas de autoridade", escreve Morris. "Os indivíduos eram responsáveis pelas tarefas que lhes eram designadas e conflitos importantes eram resolvidos pelo pastor, que em geral exercia a autoridade final sobre a congregação."

HIERARQUIA

Essa é a segunda distinção crucial entre o ativismo tradicional e sua variante on-line: as redes sociais não se prestam a esse tipo de organização hierárquica.

O Facebook e sites semelhantes são ferramentas para a construção de redes e, em termos de estrutura e caráter, são o oposto das hierarquias. Ao contrário das hierarquias, com suas regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central e única. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos.

Essa estrutura torna as redes imensamente flexíveis e adaptáveis a situações de baixo risco. A Wikipédia é um exemplo perfeito. Não há um editor instalado em Nova York que direcione e corrija cada verbete. O esforço de produção de cada entrada é auto-organizado. Caso todos os verbetes da Wikipédia sejam apagados amanhã, o conteúdo será rapidamente restaurado, porque é isso que acontece quando uma rede de milhares de pessoas dedica tempo a uma tarefa espontaneamente.

Há, no entanto, muitas coisas que redes não fazem direito. As montadoras de automóveis, sensatamente, usam uma estrutura de rede para organizar suas centenas de fornecedores, mas não para projetar os carros. Ninguém acreditaria que a articulação de uma filosofia coerente de design funcionasse melhor na forma de um sistema organizacional disperso e sem líderes.

Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas. Não conseguem pensar de modo estratégico; são cronicamente propensas a conflitos e erros. Como fazer escolhas difíceis sobre táticas, estratégias ou orientação filosófica quando todo mundo tem o mesmo poder?

PROBLEMAS

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) surgiu como rede, e, em ensaio recentemente publicado no periódico "International Security", os especialistas em relações internacionais Mette Eilstrup-Sangiovanni e Calvert Jones argumentam que esse é o motivo para que a organização tenha encontrado tantos problemas ao crescer: "Traços estruturais característicos das redes -ausência de autoridade central, autonomia irrestrita de grupos rivais e incapacidade de arbitrar disputas por meio de mecanismos formais- tornaram a OLP excessivamente vulnerável à manipulação externa e às disputas internas".

"Na Alemanha dos anos 70", os dois prosseguem, "os terroristas de esquerda, muito mais unidos e bem-sucedidos, tendiam a se organizar hierarquicamente, com gestão profissional e clara divisão de tarefas. Estavam geograficamente concentrados nas universidades, onde podiam estabelecer liderança central, confiança e camaradagem por meio de reuniões regulares, cara a cara".

Era raro que entregassem seus companheiros de armas nos interrogatórios da polícia. Já seus equivalentes na direita se organizavam como redes descentralizadas e não mantinham disciplina semelhante. Era comum que esses grupos fossem infiltrados, e que seus membros, quando detidos pela polícia, entregassem facilmente seus companheiros. De forma semelhante, a Al Qaeda era mais perigosa quando mantinha uma hierarquia unificada. Agora que se dissipou em rede, vem se mostrando bem menos eficaz.

MUDANÇA SISTÊMICA

As desvantagens das redes pouco importam quando não estão interessadas em mudança sistêmica -caso desejem apenas assustar, humilhar ou fazer barulho-, ou quando não precisam pensar estrategicamente. Mas, se o objetivo é combater um sistema poderoso e organizado, é preciso uma hierarquia. O boicote ao serviço de ônibus em Montgomery exigiu a participação de dezenas de milhares de pessoas que dependiam do transporte público para ir ao trabalho e voltar todo dia. E durou um ano.

A fim de persuadir as pessoas a se manterem fiés à causa, os organizadores encarregaram cada igreja negra local de manter o moral alto e montaram um sistema alternativo de transporte solidário que contava com 48 telefonistas e 42 pontos de parada. Até mesmo o Conselho de Cidadãos Brancos, King afirmou mais tarde, reconheceu que o sistema de transporte solidário funcionava com "precisão militar".

Quando King foi a Birmingham, no Alabama, para o confronto decisivo com o comissário de polícia da cidade, Eugene "Bull" Connor, contava com orçamento de US$ 1 milhão e uma equipe de 100 funcionários em período integral, já instalados na cidade e divididos em células operacionais. A ação foi dividida em fases, que se intensificavam gradualmente e eram mapeadas com antecedência. O apoio foi mantido por meio de sucessivas assembleias, num rodízio entre as igrejas da cidade.

LEGITIMIDADE MORAL

Boicotes, protestos e confrontos não violentos -armas preferenciais do movimento pelos direitos civis- são estratégias de alto risco.

Deixam pouca margem para conflito e erro. No momento em que um único manifestante abandona o roteiro e reage a uma provocação, a legitimidade moral de todo o protesto fica comprometida. Os entusiastas das redes sociais sem dúvida gostariam que acreditássemos que a tarefa de King em Birmingham seria imensamente facilitada se ele pudesse usar o Facebook para se comunicar com seus seguidores e se contentasse em enviar tweets de uma cela.

Mas as redes são confusas -pense no padrão incessante de correção e revisão, emendas e debates, que caracteriza a Wikipédia. Caso Martin Luther King tivesse tentado um "wiki-boicote" em Montgomery, teria sido esmagado pela estrutura do poder branco. E que uso teria uma ferramenta de comunicação digital numa cidade na qual 98% da comunidade negra podia ser contatada na igreja, todo domingo?

Em Birmingham, King precisava de disciplina e estratégia, o tipo de coisas que as redes sociais não são capazes de fornecer.

PODER DE ORGANIZAÇÃO

A bíblia do movimento das redes sociais é "Here Comes Everybody", de Clay Shirky, professor na Universidade de Nova York. Ele procura demonstrar o poder de organização da internet e começa pela história de Evan, que trabalhava em Wall Street, e de sua amiga Ivanna, que esqueceu seu smart-phone, um caro Sidekick, no banco de um táxi nova-iorquino.

A companhia telefônica transferiu os dados do celular perdido de Ivanna a um novo aparelho e assim a proprietária e Evan descobriram que o Sidekick estava em posse de uma adolescente do Queens, que vinha usando o aparelho para tirar fotos de si mesma e de suas amigas.

Quando Evan lhe enviou um e-mail pedindo que devolvesse o celular, Sasha respondeu que ele era um "bundão branco" que não merecia tê-lo de volta. Irritado, ele montou uma página na web com uma foto de Sasha e uma descrição do ocorrido. Encaminhou o link aos amigos, que o repassaram a outros amigos. Alguém localizou a página do namorado de Sasha no MySpace e um link para ela foi criado no site.

Alguém descobriu o endereço dela na web e gravou um vídeo mostrando a casa quando passou de carro por lá; Evan postou o vídeo no site. A história ganhou destaque no Digg, um site agregador de notícias. Evan passou a receber dez e-mails por minuto. Criou um fórum on-line para que seus leitores contassem suas histórias, mas as visitas eram tantas que o servidor vivia caindo.

Evan e Ivanna procuraram a polícia, mas o boletim de ocorrência definia o celular como "perdido", e não "roubado", o que significava que, na prática, o caso estava encerrado.

"Àquela altura, milhões de leitores estavam acompanhando", escreve Shirky, "e dezenas de veículos da mídia convencional haviam mencionado a história". Cedendo à pressão, a polícia de Nova York reclassificou o celular como "roubado". Sasha foi detida e a amiga de Evan conseguiu o Sidekick de volta.

O argumento de Shirky é o de que esse é o tipo de coisa que jamais poderia ter acontecido na era anterior à internet -e ele tem razão. Evan não teria conseguido localizar Sasha.

A história do Sidekick jamais teria sido divulgada. Um exército de pessoas não se teria formado para participar da batalha. A polícia não teria cedido à pressão de uma pessoa só, por algo tão trivial quanto um celular perdido. O caso, na opinião de Shirky, ilustra "a facilidade e rapidez com que um grupo pode ser mobilizado para o tipo certo de causa" na era da internet.

PERIGO

Na opinião de Shirky, esse modelo de ativismo é superior. Mas, na verdade, não passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.

Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.

Os instrumentos de redes sociais estão aptos a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo.

Se, na sua opinião, o mundo só precisa de um ligeiro polimento, isso não deve lhe causar preocupação. Mas se você acredita que ainda existem lanchonetes por serem integradas ao mundo, essa tendência deveria incomodá-lo.

Grandiloquente, Shirky encerra a história do Sidekick perdido perguntando: "O que virá a seguir?" -e, sem dúvida, imagina futuras ondas de manifestantes digitais.

Mas ele mesmo já respondeu à pergunta. O que virá é a mesma coisa, repetidamente. Um mundo feito de redes e vínculos fracos é bom para coisas como ajudar gente de Wall Street a recuperar celulares das mãos de garotas adolescentes. Viva la revolución.


Nota do tradutor
1. Estados do sul dos EUA que se uniram contra os do norte do país durante a Guerra de Secessão (1861-65).
2. No serviço de microblogs Twitter, as "tags" são termos precedidos do símbolo #, utilizados para reunir todas as mensagens sobre um mesmo assunto, como #ilustrissima.


Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de sublevação social na história dos EUA, parece que esquecemos o que é ativismo

Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles

Os evangelistas das redes sociais não compreendem essa distinção; parecem acreditar que um amigo de Facebook e um amigo real são a mesma coisa

Até mesmo manifestações revolucionárias que parecem espontâneas, como as que conduziram à queda do Muro de Berlim, na Alemanha Oriental, são, em seu âmago, fenômenos de vínculos fortes

Ao contrário das hierarquias, com regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos

Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas

(Retirado da Folha de S.Paulo, 12/12/2010, Ilustríssima).

A biografia de Hitler e os bastidores da edição
[info]fabriciosgomes
A biografia de Hitler: o editor assistente Otávio Marques da Costa, do Blog da Companhia das Letras, fala sobre o livro e os bastidores da edição:

A chapa quebrada

por Otávio Marques da Costa

Há muito a dizer sobre o Hitler de Ian Kershaw — talvez o relato mais completo, e, sem dúvida, o mais fluente já escrito sobre o ditador alemão —, mas ao editar nossa tradução fiquei fascinado pelo bizarro cotidiano do Monstro.

Esse Hitler do dia a dia contraria o estereótipo do germânico disciplinado e organizado. Já morando na Chancelaria do Reich, o Führer em geral dormia de madrugada, acordava só depois do meio-dia, atrasava duas horas para aparecer à mesa do almoço, e dava bolos frequentes em seus convidados. Era também preguiçoso: evitava as reuniões maçantes sobre questões estritamente financeiras e orçamentárias e pouco se preocupava com a base prática para seus sonhos megalômanos. Até mesmo em questões de estratégia militar o ditador era um diletante — agia antes por impulso que com a razão, e não se preocupava muito em entender de ciência militar ou ouvir os conselhos das altas cúpulas das Forças Armadas. Gostava mesmo era de assistir a filmes água com açúcar antes de dormir, e admirar suas maquetes das cidades neoclássicas que reergueria no Reich vitorioso.

O talento de manipulador de massas — reconhecido por Kershaw como o grande trunfo do ditador — contrastava com a frieza e a distância nas relações pessoais. Embora pareça ter restringido intencionalmente seu círculo “próximo” para fortalecer o mito do Führer, Hitler sempre foi avesso a contatos pessoais, um esquisitão. Teve um único amigo genuíno na vida — August Kubizek, dos tempos de penúria e fracasso em Linz e Viena (onde levou a clássica bomba no exame de admissão à Escola de Belas Artes) — e parece ter amado de verdade só a mãe. Poucos estiveram com ele em momentos de verdadeira “descontração”. De ninguém foi realmente íntimo — sua primeira “namorada” de que se teve notícia, a sobrinha Geli Raubal, era mais um adorno que uma companheira; Eva Braun, que ele sempre manteve longe dos olhares públicos e só assumiu oficialmente no bunker, um artifício para quebrar o gelo nos momentos tensos. Dos “honrados” com o convívio do Líder, poucos guardaram boa recordação. Além das famosas diatribes histéricas e fanáticas e das arengas intermináveis, o hálito nauseabundo do Führer repelia os legatários internacionais.

A fobia do contato foi se agudizando pela crescente hipocondria, que também rende dados curiosos, como a dieta vegeteriana radical e cada vez mais parca, e a longa dependência de um miraculoso colírio à base de cocaína, que seu pouco ortodoxo médico particular lhe aplicaria até os últimos dias no bunker.

* * * * *

 


Do lado de cá do balcão, a empreitada foi árdua. Mas as idas e vindas da edição de um livro “grandinho” em tempo exíguo — Hitler foi o maior volume já publicado pela editora, me disse o departamento de produção — já foram muito bem ilustradas pela minha colega Lucila, em seu post sobre Não há silêncio que não termine, da Ingrid Bettancourt. Assim, e como o post já vai longo, acho que vale aqui reproduzir só uma anedota de “bastidor”: a escolha da capa.

Estávamos todos ansiosos para ver o que o Kiko Farkas ia mostrar. A capa da edição hardcover americana era um anticlichê: uma foto de Hitler lendo placidamente no Berghof, seu refúgio alpino, com o pano de fundo das montanhas bávaras. Parece um senhor respeitável, pacato, numa temporada de férias no campo. Tínhamos de fazer algo à altura.

Foram duas as proposta enviadas pelo Máquina Estúdio: a aprovada, uma foto de Hitler, em trajes civis, sentado numa cadeira de espaldar alto ao lado de seu cão pastor Wolf — a chapa quebrada de uma foto oficial rejeitada. Se por um lado é a imagem da maldade (talvez graças a nossos olhos treinados a associar o mal a Hitler), denota também fragilidade: o corpo torcido num esforço para fazer que os pés alcancem o chão, os olhos mais tristes que marciais. Não é difícil saber por que foi rejeitada pela propaganda nazista.

A outra era uma capa gráfica: sobre um fundo vermelho, um grande retângulo dentado negro no canto superior direito e outro igual, mas menor e paralelo ao logotipo da editora, no centro da capa. Um, a franja; outro, o bigode. Do minimalismo de formas, surge a imagem do Monstro.

Depois de alguma polêmica interna, fomos “na tradição”, e ficamos com a foto. As fissuras na chapa — a um só tempo símbolo do fim trágico e do acesso ao revés do objeto (finalidade de toda biografia) — e o desconforto de Hitler com a altura da cadeira foram irresistíveis. Mas para aplacar o remorso por “desperdiçar” uma capa tão boa, decidimos reproduzí-la aqui no blog.

Retirado de http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/12/a-chapa-quebrada/

Historiografia e espacialidades
[info]fabriciosgomes
Reproduzo excelente texto publicado no blog "Para entender a História", de Fábio Pestana Ramos. Fábio é Doutor em História Social pela USP e professor universitário:

Historiografia e espacialidades

A abordagem das espacialidades, no âmbito da historiografia, comporta duas vertentes de análise distintas.

Primeiro a mais obvia e pontual, aquela que abrange o conceito de história como estudo do homem no tempo e espaço, a territorialidade geográfica abordada pelos historiadores.

Depois, uma temática mais abrangente e pertinente ao campo historiográfico, a divisão do conhecimento histórico em áreas teóricas diversificadas, dentro das quais a questão geográfica também está presente como uma pequena parcela de sua ampla envergadura.

Pensando conceitualmente, a história refere-se “sempre a certos processos da vida humana em uma diacronia – isto é, no decurso de uma passagem pelo tempo – ou que se relacionam de outras maneiras, mas sempre muito intensamente, com uma idéia de temporalidade”.

Tal como estabeleceu à lingüística, também na história os termos sucessivos se substituem uns aos outros ao longo do tempo, tornando a historicidade uma sucessão de fatos, estudados através da sincronia, o entendimento das estruturas.

Uma perspectiva que remete ao contexto geográfico e politico, ao espaço social que termina adentrando o imaginário, a iconografia, a literatura, enfim os espaços virtuais, ao mesmo tempo, penetrando o local e o regional.

Uma abordagem, até a década de 1950, mais comumente efetivada por geógrafos, sociólogos e antropólogos, em certo sentido, vinculada com a História Oral, os relatos individualizados não registrados pela escrita, circunscritos a memória de determinadas pessoas.

Destarte, estes estudos são apenas um pequeno pedaço da grande teia teórica que se formou em volta da historiografia profissionalizada desde o século XIX.

A partir da busca da cientificidade, passou a existir uma profusão de domínios partilhados pelo saber histórico, como, por exemplo, a História Social, a História Econômica, a História Cultural, a História Demográfica, a História Política, a História Serial, a Micro-História e a História Quantitativa.

Todas elas, noções que se referem a dimensões ou a fatores que ajudam a definir a realidade política, social, econômica e cultural; remetendo a classificações que dizem respeito ao tipo de fontes com as quais os historiadores lidam, ou ainda às abordagens utilizadas para tratar estas fontes.

Na realidade, classificações que trazem, internamente, subdivisões quanto aos ambientes, sujeitos e objetos; originando outros olhares historiográficos como a História das Mulheres, a História das Crianças, a História dos Marginais, a História das Cidades, a História Rural, a História da Sexualidade e a História da Arte.

Espacialidades historiográficas que pertencem também a territórios teóricos que determinaram as narrativas, compondo correntes de pensamento, tal como o positivismo, a escola metódica alemã, o marxismo ou annales.

Isto para não mencionar as regiões em que a história faz fronteira com outras áreas do conhecimento humano, o que implicaria em transitar pelas filosofias da história e as várias concepções decorrentes.

Embora a espacialidade geográfica e referente à divisão do conhecimento histórico em campos, à primeira vista, possam parecer distintas; estão intrinsecamente relacionadas, são interdependentes.

Sendo a história uma ciência que estuda o passado, analisando as transformações, para entender o presente; esta tentativa de resgatar o passado estuda o homem em um tempo e espaço, sempre por um viés teórico, conceitos que se complementam e misturam para construir o saber histórico.

Portanto, analisar a composição da historiografia contemporânea, suscita este duplo debate, até porque o próprio conceito de interdisciplinaridade, que trouxe para a história a questão dos espaços geográficos, decorreu de um aspecto formalmente pertencente à outra forma de espacialidade: a teórica.

A História e Geografia antes de Annales


História e geografia são ciências sociais que diferem das ciências da natureza, biológicas ou exatas.

Enquanto a história analisa os processos históricos, procurando o desenvolvimento da organização social, econômico, político, administrativo e cultural.

A geografia estuda os territórios e a sua transformação, procura analisar o ser humano dentro do contexto da natureza, a sua relação com as mudanças que provoca.

Aparentemente distintas quanto ao objeto e a abordagem, são áreas que se complementam e completam.

Uma reflexão que foi pensada pelos geógrafos e antropólogos muito antes dos historiadores vislumbrarem.

Até o século XVIII, a geografia, ainda não considerada uma ciência, procurava trabalhar com temas gerais, cosmográficos, inserindo a Terra no universo e tentando conhecê-la e decifrá-la; fazia trabalhos descritivos, empíricos, usando uma abordagem que espelhava a dicotomia metodológica matematizada.

No entanto, como ressaltou Milton Santos, no final do século XIX, a geografia renasceu comprometida com a ideologia imperialista dominante na época.

Passou a constituir uma ciência e filosofia que teorizava e justificava o colonialismo, com novas conquistas territoriais, tanto políticas como econômicas, fazendo largo uso da história para teorizar e justificar a dominação européia da África e Ásia.

Quanto à visão antropológica, mesmo antes do aparecimento desta área do conhecimento humano como ciência, textos de filósofos, cronistas, viajantes e soldados retratavam a experiência humana, vinculando-a com questões geográficas, para explicar o desenvolvimento de civilizações, religiões e culturas.

No século XVIII, o iluminismo racionalizou a antropologia, discutindo as relações entre os povos, novamente usando como ferramentas auxiliares a história e a geografia.

Embora estes trabalhos estivessem restritos a narrativas individualizadas que, passariam, no século XIX, a servir também para justificar teorias eurocêntricas que inferiorizavam povos dominados pelo colonialismo, como os indígenas da América.

Na história, a geografia se fez presente somente no inicio do século XX, quando as idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, no final do século XIX foram incorporadas a teoria da história. Preocupados em demonstrar que o capitalismo seria um acontecimento transitório, diante do aparecimento de uma classe revolucionária, para o surgimento de uma sociedade comunal; terminaram transpondo conceitos importantes para o contexto teórico do saber histórico, originando uma nova escola historiográfica.

Marx criou um sistema racional de interpretação da realidade, pensada em termos de movimento e mudança, marcado pelo determinismo econômico, conciliando a reflexão filosófica com a prática política.

Originou uma gama tão ampla de interpretações e desdobramentos que o próprio Marx, antes de morrer, declarou ter certeza de que ele não era marxista.

Um destes desdobramentos foi o surgimento da escola historiográfica marxista, extremamente preocupada com as questões teóricas, visto que para Marx uma teoria não podia ser pensada sem correspondência com o contexto histórico, devendo encontrar suas raízes na realidade para transformá-la.

Esta característica, em especifico, criou desdobramentos também dentro da escola historiográfica marxista, tornando-a até certo ponto confusa, a despeito de duas características em comum em todas as orientações: a adoção da dialética e do materialismo histórico como foco central de análise, voltados, obviamente, para alcançar os princípios marxistas.

Marx havia pegado emprestado o conceito de dialética de Hegel, o exame de tese, antítese e síntese, compondo uma espécie de dialogo consigo mesmo, o qual deveria estimular a prática revolucionária; apropriando-se do conceito de materialismo histórico de Feuerbach, tendência que partia da base econômica para explicar outros níveis de realidade, como a religião ou a política.

Este viés transformou a história em uma concepção teórica direcionada a transformar a sociedade, uma ciência da prática revolucionária através do estudo do passado.

Conceito que precisava da contextualização das territorialidades para efetivar-se como método de análise incorporado à historiografia, uma vez que o materialismo histórico tinha nas questões geográficas um dos elementos determinantes das condições econômicas e, por conseguinte, políticas, sociais e culturais.

Entretanto, a verdadeira interdisciplinaridade entre a história e a geografia só começou a ser construída com escola geográfica de Paul Vidal de La Blache, um geógrafo que já atuava em conjunto com historiadores desde 1905, estabelecendo relações entre a noção de “espaço” e de “região”.

O modelo geográfico de La Blache opunha-se à escola geográfica alemã de Ratzel.

Enquanto este último era francamente determinista, atribuindo uma influência quase linear do meio sobre o destino humano, La Blache trabalhava com a idéia de um possibilismo geográfico.

Isto significa que, ainda que colocando o meio geográfico no centro da análise da vida humana, La Blache buscava enfatizar as diversas possibilidades de respostas que podiam ser colocadas pelos seres humanos diante dos desafios do meio.

Posteriormente, Lucien Febvre, e mais tarde Fernand Braudel, adotariam este modelo, inspirando novos trabalhos que se tornariam clássicos da historiografia pensada em torno das espacialidades.

As espacialidades geográficas em Annales


O surgimento da Escola de Annales, em 1929; uma reação critica as concepções históricas do século XIX, notadamente rejeitando a ênfase positivista e metódica em política, diplomacia e guerras, assim como a abordagem economicista do marxismo; trouxe a questão das espacialidades em definitivo para a história, isto, em um duplo sentido, tanto geográfico como teórico.

Annales pretendia adotar uma abordagem sociológica, unindo o estudo da geografia sociologia e história para entender os fatos e as mudanças históricas, dando especial atenção ao cotidiano.

Quebrando com as antigas metodologias, iniciou, ao mesmo tempo, uma nova abordagem da analise dos fatos no tempo e espaço, rediscutindo o próprio conceito de história.

Para tal se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências anteriores.

Circunscrita aos meios universitários, conceituando a história de forma ampla, abrangendo o estudo vivo da produção humana; Annales desdobrou-se em várias linhas teóricas e campos de pesquisa, notadamente servindo de base para criar departamentos tanto de história social como econômica; fomentando debates acerca da natureza teórica do conhecimento histórico, hoje, incorporados ao panorama historiográfico.

No entanto, as primeiras representações desta nova forma de pensar a história, assim como as aplicações das concepções espaciais derivadas da escola geográfica de Paul Vidal de La Blache, apareceram na historiografia com a obra A Terra e a Evolução Humana, publicada por Lucien Febvre em 1922, portanto, ainda em data anterior a fundação da Revista Annales: economia, sociedade e civilizações.

Febvre inaugurou a moderna concepção de espacialidade histórica, relatando as relações entre o meio físico e a sociedade, tidos como elementos necessários para estudar as macro-problemáticas.

Dentro deste âmbito, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel revolucionou de fato a abordagem das espacialidades territoriais, ao unir pressupostos da história e geografia, com a publicação de O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II em 1949.

Na obra, ele demonstrou como era possível decompor o tempo da história em planos desdobrados: o tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.

No tempo individual estaria fixada a história não do homem como coletividade, mas do homem como individuo, com variações rápidas e dinâmicas, permitindo ao historiador observar os acontecimentos.

Exatamente o tipo de abordagem em que estaria concentrada a maior parte da historiografia, sendo o tempo da curta duração, de tudo que muda com muita rapidez, por isto, mais facilmente percebido.

O tempo social seria o plano pelo qual se pode observar a história social dos grupos e agrupamentos, pertencendo a uma história lentamente ritmada, circunscrita ao crescimento demográfico e da economia, elementos pertencentes a longa duração.

Seria, portanto, o tempo das estruturas que mudam com muita lentidão, fazendo quem a vivencia não se dar conta destas mudanças, neste sentido, assemelhando-se mais ao que, depois, convencionou-se chamar de média duração.

O tempo geográfico representaria uma história quase imóvel, que observa o relacionamento do homem com o meio que o rodeia.

Uma história que passa lentamente e sofre poucas transformações.

As regiões montanhosas e a população que lá habita, fornecem um bom exemplo desta temporalidade, mostrando o quanto, nesta dimensão, os costumes, ligados aos aspectos geográficos, pouco mudam, já que o ambiente que os rodeia também não muda, o que Braudel chamou de longuissima duração.

Para ele, os historiadores concentravam sua atenção apenas nos processos da curta duração, deixando de lado as outras temporalidades, oferecendo apenas um vislumbre da história, sem conseguir chegar a nenhuma elucidação.

O que envolvia, portanto, deixar também as espacialidades geográficas em segundo plano.

Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário realizar macroabordagens, penetrando as três temporalidades, adentrando de fato as espacialidades geográficas e suas especificidades, dando conta, por exemplo, tanto das questões regionais como dos espaços mais amplos.

Somente assim seria possível tornar a escrita da história uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.

História Regional e espacialidades.


A renovação historiográfica efetuada no século XX, propiciada por Annales, ampliou os campos e territórios do historiador, dentre os quais uma espacialidade teórica que foi, em grande medida, inspirada pelas reflexões braudelianas e que se insere duplamente no significado dos espaços: a História Regional.

Apesar de antecedentes que datam de pelo menos uma década antes, surgida nos anos de 1970, como uma resposta ao fenômeno da globalização que iria se intensificar a partir da década seguinte.

A tendência não tratava simplesmente de pequenas porções de um território geográfico ou país, embora também pudesse abordar espacialidades físicas; antes, enxergava no espaço e através dele as dinâmicas históricas, obrigando o historiador a lidar com os processos de diferenciação de áreas.

Assim, ao conceber uma nova concepção de história e propor abordagens mais adequadas ao entendimento de inquietações ligadas às identidades, a História Regional constituiu mais um pedaço das espacialidades teóricas na historiografia.

Simultaneamente, abrangeu elementos físicos das regiões para entender aspectos da demografia, economia, política, cultura, enfim as experiências dos grupos sociais historicamente vinculados com uma base territorial em muitos casos geograficamente constituída.

O que não permite confundir a História Regional com a Micro-História, já que, enquanto a primeira estuda a realidade recortada por ela mesma, à segunda faz uma redução de escala de observação para observar aspectos que poderiam não ser percebidos na análise macro.

Inclusive porque, ao contrário da chamada história em migalhas, a escala da História Regional pode constituir uma macro-análise, tanto teórica como geográfica. Paradoxalmente, a concepção abrange outras metodologias e enfoques auxiliares, tal como, por exemplo, a História Cultural ou das Mentalidades, ou ainda o conceito de Representações.

Isto porque a historiografia regional testa a validade de teorias elaboradas a partir de parâmetros outros.

Via de regra, um país como um todo, ou uma região, em geral, a hegemonia dos grupos dominantes, tende a falsear a leitura do passado; forçando o historiador a confrontar realidades particulares e concretas, as quais se mostram muitas vezes inadequadas ou incompletas quando analisadas apenas por um único prisma teórico.

Por outro lado, a História Regional entende a si mesma como parte de um sistema de relações que integra uma região, a qual deve ser definida pela referência ao sistema que fornece seu principio de identidade, oscilando entre o sistema internacional, ou dentro de uma das unidades de um sistema político, e uma região cujas fronteiras não coincidem com os imites políticos juridicamente definidos.

O que traz implicações não só do ponto de vista do objeto, como igualmente das fontes.

Ao trabalhar com a História Regional, o historiador termina estudando a memória coletiva, construída a partir não só de visões particularizadas do passado, representadas pela oralidade, como também baseada em documentos.

Estes prestam testemunho vivo do passado, perpetuando a recordação a um ponto tal de elaboração que, como lembrou Lefebvre, aquilo que não foi registrado termina se perdendo, tendo se transformado em algo que já não é mais.

Na maioria das vezes, os documentos não estão em arquivos públicos organizados e à disposição para a pesquisa.

O historiador precisa localizar o material que pode estar em poder de famílias ou instituições e que dificultam o acesso por motivos diversos.

Tornando mais fácil e usual recorrer às fontes orais, as quais, neste contexto, acabam adquirindo grande importância, sendo muitas vezes a única fonte disponível e que requer uma atenção para que a pesquisa não fique comprometida com os interesses do entrevistado ou a distorcida pelas respostas.

Esta constatação remete a outra espacialidade teórica que se encontra neste ponto com a História Regional, ou seja, a História Oral.

Exigindo do historiador uma tentativa de manter-se imparcial, o que quase nunca é possível, em vista do profissional da história estar, também ele, inserido em um tempo e espaço.

Sujeito, portanto, as diversas influencias, dentre as quais as espacialidades teóricas, pertencendo ou transitando, em vários casos, por muitas delas, caminhando entre fronteiras tênues.

Espacialidades e Territórios teóricos


Tanto a História Regional como a História Oral são apenas um dos muitos territórios teóricos da história, nascidos frente às discussões metodológicas e em torno da definição do conceito de história, debates que fazem parte, igualmente, da questão das espacialidades historiográficas e da definição técnica de territórios.

Neste sentido, quer o oficio do historiador seja meramente o domínio destes métodos e técnicas, circunscritos a um conjunto teórico; ou, ainda, um exercício de imaginação, a construção de uma narrativa verossímil, entre outras possíveis; não se pode negar que o surgimento da escola de Annales inaugurou uma postura teórica e metodológica diferenciada.

A corrente se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências anteriores, tentando se isentar de ideologia, embora esta tentativa seja passível de inúmeras criticas, já que o historiador, sendo fruto de seu tempo, jamais conseguirá traçar uma análise imparcial.

A partir da problematização, a Escola desdobrou-se em várias linhas teóricas, inspirando até mesmo os curiosos e historiadores amadores, notadamente servindo de base para criar departamentos e linhas de pesquisa as mais diversas no âmbito acadêmico.

A exemplo do que aconteceu quando a Universidade de São Paulo foi criada em 1933, quando, dentre as levas de professores estrangeiros importados para satisfazer a demanda por um corpo docente altamente qualificado, esteve presente Fernand Braudel, um dos mais notórios representantes de Annales e, talvez, seu maior divulgador.

É verdade que, antes do pensamento teórico do século XX, tivemos concepções que interferiram diretamente no conceito de história, inclusive modificando a relação entre o conhecimento histórico e outras áreas, tal como o iluminismo, o positivismo, a escola metódica alemã ou o marxismo.

No entanto, as espacialidades historiográficas são hoje muito mais complexas, comportando uma enorme dificuldade: a determinação das fronteiras entre territórios, uma vez que os conceitos se emaranham e comunicam continuamente, ocultados em meio a problemáticas, hipóteses, respostas e linhas narrativas.

Segundo José D´Assunção Barros, um dos historiadores brasileiros que tem se notabilizado pelos numerosos e esclarecedores trabalhos em teoria da história, “um dos fenômenos mais interessantes da historiografia no século XX se refere à profusão de domínios em que está partilhado hoje o saber historiográfico”.

Para o autor, contemporaneamente, as espacialidades teóricas em se insere a historiografia, poderiam ser divididas em dimensões, abordagens e domínios; correspondentes, respectivamente, a clássica divisão em enfoques, métodos e temas.

Por dimensões ou enfoques, entende ele um modo de ver a história e sua função dentro da sociedade, colocando em primeiro plano uma esfera da vida humana em detrimento de outras, onde poderíamos enquadrar as principais Escolas historiográficas até o aparecimento de Annales.

Embora, atualmente, pudéssemos incluir também perspectivas como a política, a social, a demográfica, a econômica, a antropológica, a cultural; assim como a História das Mentalidades, a História do Imaginário, a Geo-História, a Cultura Material, a Etno-História e a Psico-História.

A despeito destas dimensões se misturem e deslocarem conforme o contexto histórico e as relações estabelecidas com abordagens e domínios, após o advento da reivindicação da cientificidade da história, a perspectiva mais usual no século XIX, foi sem dúvida à política, intimamente relacionada com o positivismo e a Escola Metódica alemã.

No final deste período, confrontada pela abordagem econômica, apoiada pelo marxismo, surgiu a História da Cultura Material como um dos seus desdobramentos.

Corrente que seria revitalizada pela historiografia na década de 1970 e que hoje ganha novo fôlego, mesclada com a Nova História Cultural da historiadora norte-americana Lynn Hunt, esta última renascida em 1989.

Isto porque, como lembrou o professor Elias Tomé Saliba, a cultura transformou-se na categoria chave para a compreensão do mundo contemporâneo, tendo em vista que as esferas social, econômica, política e ideológica estão emaranhadas ao seu modo primário de representação.

Entretanto, a História da Cultura já estava presente nas concepções de Fernand Braudel, apesar de mais evidente nos estudos do imaginário de Jacques Le Goff; tendo sido este campo de estudo fundado pelo menos 100 anos antes.

Surgiu na década de 1870, com os trabalhos do suíço Jacob Burckhardt, o qual fomentou a tradição de concentração de obras baseadas na história dos clássicos, das obras-primas da arte, literatura, filosofia e ciência.

Forjando uma historiografia que investigou as conexões entre as diferentes áreas e seu contexto histórico de produção, visando entender o que Hegel chamou de espírito da época, portanto, então já vinculada com a História da Cultura Material.

Igualmente contraposto a História Política, ao lado da perspectiva econômica e cultural, o inicio do século XX edificou a História Social, fortalecida depois por Annales e até hoje dominante no Brasil nos meios acadêmicos.

Esta nova dimensão foi atravessada por outros enfoques, fazendo o caleidoscópio historiográfico sofrer novos arranjos, originando múltiplos desdobramentos.

Dentre os quais, abordagens ou métodos, conceitualmente definidos como um modo de narrar à história a partir de determinados campos de observação, implicando em formas diferenciadas de tratamento e escolhas de fontes.

Onde se inserem a Arqueologia, as Biografias, a Micro-História, a História Oral e, em certo sentido, até mesmo a História Regional.

Uma espacialidade teórica complementada pelos domínios ou temas, orientações especificas entre os sujeitos e os objetos, com a definição mais pontual de temáticas, como Gênero, Sexualidade, Arte, Idéias, Religião, Direito, Vida Cotidiana, entre muitos outros.

Espaços com fronteiras nem sempre delineadas com clareza, mas que interferiram na concepção de história e na narrativa dos historiadores, inclusive modificando a própria noção de território geográfico; originando múltiplas linhas e tendências historiográficas.

Concluindo

Ao longo da história da história, a própria definição da natureza do conhecimento histórico sofreu alterações sensíveis, algumas mais visíveis do que outras, mas todas engajadas, direta ou indiretamente, em torno do tempo e das espacialidades.

Isto, no que diz respeito ao ultimo elemento, em duplo sentido, tanto pelo viés territorial como teórico.

Observando a historiografia, podemos notar nitidamente que cada reestruturação da narrativa histórica constituiu uma critica de abordagens anteriores.

O que envolveu um intenso debate circunscrito ao academicismo das Universidades, representado pelas teses, dissertações e artigos, com um público leitor especializado e restrito.

Uma postura que se opõem à narrativa jornalística dos livros de divulgação, escritos por não especialistas, em muitos casos se quer por historiadores, destinados a um publico mais amplo.

Estas narrativas constituem um terreno fartamente explorado pelos jornalistas, historiadores do agora, o que não invalida a sua contribuição ao enriquecimento do conhecimento humano.

Desde que embasados cientificamente, estes textos representam apenas visões distintas de uma mesma realidade, por isto mesmo, alguns tem sido, inclusive, incorporados a historiografia profissionalizada.

Até porque o mesmo acontece também no âmbito acadêmico, onde várias teses oferecem respostas distintas para uma mesma problemática, sendo algumas esquecidas ou colocadas de lado ao longo do tempo, enquanto outras se tornam clássicos, obras de referência.


Neste sentido, assim como a leitura do passado nunca poderá ser moldada em uma forma definitiva, a discussão em torno da historiografia estará sempre na pauta do dia, será sempre objeto acadêmico de intensa discussão.

Não poderia ser diferente, para o bem da própria história é saudável que tenhamos versões diferentes para os mesmos fatos, com narrativas as mais diversas, para que o leitor, também ele sujeito da história, não fique a mercê de respostas prontas, tendo disponíveis um arcabouço que lhe permita extrair suas próprias conclusões.

Destarte, como ressaltou Jacques Le Goff, não existe sociedade sem história, o que conduz ao conceito de historicidade, o pertencer de cada individuo ao seu tempo e espaço, os aspectos comuns que todos os homens de determinada época compartilham e dos quais ninguém pode escapar, quer sejam historiadores profissionais ou não.

De modo que, se existe um paradigma em história, tal como o conceito formulado por Thomas Kuhn, circunscrito a base referencial sobre a qual um conjunto teórico é construído; este só pode ser considerado como o tempo histórico em que o historiador se circunscreve, o que termina interferindo em sua concepção de espacialidade territorial e teórica e que, paradoxalmente, também interfere no conceito de temporalidade.

Sendo a natureza do conhecimento histórico plural, comportando uma multiplicidade de teorias contraditórias entre si e que explicam o passado plausivelmente, fornecendo ângulos e visões distintas que não se anulam; a historiografia só pode ser definida como um conjunto de narrativas circunscritas ao um tempo e espaço, transformando e embaralhando a espacialidade geográfica, territorial, com as questões teóricas.

Para saber mais sobre o assunto


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Retirado de http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/12/historiografia-e-espacialidades.html

Entrevista com Roger Chartier
[info]fabriciosgomes
Por Isabel Lustosa

"Não posso aceitar a idéia que está identificada com o pós-modernismo de que todos os discursos são possíveis porque remetem sempre à posição de quem o enuncia e nunca ao objeto", afirma o historiador em entrevista exclusiva


Encontrei Roger Chartier no hall da Casa de Rui Barbosa no dia anterior a essa entrevista. Ele voltava do almoço com Sandra Pesavento, sua amiga e organizadora do Seminário de História Cultural, do qual estava participando. Sandra já lhe havia falado de mim e dito do meu interesse em conversar com ele, de modo que quando nos vimos de longe ela me acenou. Imediatamente, o professor Chartier veio ao meio encontro com aquele sorriso simpático que é uma de suas características. Pois Roger Chartier, a par de ser uma celebridade do mundo acadêmico, é extremamente simples, afável, quase carioca na maneira natural e bem-humorada de se aproximar das pessoas, de deixá-las à vontade. Marcamos a entrevista para a manhã do dia seguinte (16/09/2004), no Hotel Glória, onde o historiador gosta de se hospedar no Rio de Janeiro.

Sabendo o quanto Chartier tem sido entrevistado por historiadores e jornalistas e seguindo o meu pendor natural para conhecer a vida das pessoas, orientei minhas primeiras perguntas no sentido de conhecer um pouco da biografia do entrevistado. Chartier resistiu bravamente a se tornar ele mesmo objeto de estudo, mas no exercício legítimo desta resistência nos proporciona aqui uma interessante reflexão sobre a questão biográfica.

Entrevistado que facilita o trabalho do entrevistador, pois reage aos temas com clareza, vivacidade e erudição, o que ressalta do discurso de Chartier é o seu permanente interesse pelos temas relacionados ao seu trabalho. A maneira articulada e inteligente como as suas respostas brotam denunciam o intelectual em que trabalho e vida se confundem, tal como na proposição de Wright Mills: "A erudição é uma escolha de como viver e ao mesmo tempo uma escolha de carreira; quer o sabia ou não, o trabalhador intelectual forma seu próprio eu à medida que se aproxima da perfeição de seu ofício".

Diretor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, e professor especializado em história das práticas culturais e história da leitura, Roger Chartier é um dos mais conhecidos historiadores da atualidade, com obras publicadas em vários países do mundo. Sua reflexão teórica inovadora abriu novas possibilidades para os estudos em história cultural e estimula a permanente renovação nas maneiras de ler e fazer a história.

Chartier foi professor convidado de numerosas universidades estrangeiras (Princeton, Montreal, Yale, Cornell, John Hopkins, Chicago, Pensilvânia, Berkeley etc) e publicou no Brasil os seguintes livros: “História da vida privada, vol. 3: da Renascença ao Século das Luzes” (Companhia das Letras); “Cultura escrita, literatura e história” (Artmed), “Formas do sentido - Cultura escrita: entre distinção e apropriação” (Mercado de Letras), “Os desafios da escrita” (ed. da Unesp), “A aventura do livro” (Unesp), A beira da falésia” (Editora da Universidade), “Do Palco à Página” (Casa da Palavra), “A ordem dos livros” (UnB), “História da leitura no mundo ocidental” (Ática), Práticas da leitura” (Estação Liberdade), “O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente” (sob a direção de M. Baratin e C. Jacob, Ed. UFRJ) e “Leituras e leitores na França do Antigo Regime” (Unesp).

Quem é Roger Chartier? Como a sua obra se relaciona com a sua história de vida?

Roger Chartier: Tenho sempre uma certa prudência com questões pessoais. Acho que, quando a gente fala de si, constrói algo impossível de ser sincero, uma representação de si para os que vão ler ou para si mesmo. Gostaria de lembrar, a este propósito, o texto de Pierre Bourdieu sobre a ilusão biográfica ou a ilusão autobiográfica. Bourdieu critica este tipo de narrativa em que uma vida é tratada como uma trajetória de coerência, como um fio único, quando sabemos que, na existência de qualquer pessoa, multiplicam-se os azares, as causalidades, as oportunidades.

Outro aspecto da ilusão biográfica ou autobiográfica é pensar que as coisas são muito originais, singulares, pessoais, quando são, na verdade, freqüentemente, experiências coletivas, compartilhadas com as pessoas pertencentes a uma mesma geração. Ao fazer um relato autobiográfico é quase impossível evitar cair nesta dupla ilusão: ou a ilusão da singularidade das pessoas frente às experiências compartilhadas ou a ilusão da coerência perfeita numa trajetória de vida.

Penso que esse tipo de relato só tem sentido quando podemos relacionar um detalhe, algo que seria puramente anedótico, com o mundo social ou acadêmico em que se vive. Pierre Nora lançou a idéia de “ego-história” numa coletânea de ensaios onde estão reunidas oito autobiografias: George Duby, Jacques Le Goff, Pierre Duby, dentre outros. Eram autores conhecidos falando sobre sua trajetória pessoal ou relacionando-a com a escolha de determinado período ou campo histórico. Mas pessoalmente considero muito difícil evitar o anedótico ou o demasiado pessoal nesse tipo de relato. Como pensar em si, objetivando entender seu próprio destino social? Acho que é preciso primeiro situar-se dentro do mundo social e daí fazer um esforço de dissociação da personagem: a personagem que fala e a personagem sobre a qual se fala, que é o mesmo indivíduo.

Isto posto, podemos entrar, com uma certa cautela, na resposta à sua pergunta. Nasci em Lyon e pertenço a um estrato social fora do mundo dos dominantes, sem tradição no meio acadêmico. Minha trajetória escolar e universitária foi conseqüência desta origem. Na França, o traço dominante era a reprodução: o sistema escolar e universitário levava a que os filhos reproduzissem as mesmas posições sociais dos pais. Pierre Bordieu e Jean Claude Passeron trataram desse tema em dois livros. O primeiro, publicado em 1964, chamava-se “Os herdeiros” e o segundo, de 1970, “A reprodução”.

Naturalmente que há espaço para que as pessoas que vêm de outro horizonte social possam driblar essa tendência. A minha própria trajetória pertence a esta exceção. Para entendê-la é preciso um certo conhecimento da realidade social do pós-guerra na França, entre os anos 1950 e 60, quando predominava o sistema de reprodução, mas onde havia também alguma possibilidade de ascensão para gente de outra origem social. Acho, no entanto, que quando há este tipo de tensão entre uma forma dominante de escola e uma individualidade de origem diferente que consegue furar este sistema sempre se mantém algo dessa tensão, dessa dificuldade.

O historiador inglês, Richard Hoggart, em seu livro “The uses of literacy”, reflete sobre a sua própria trajetória de estudante bolsista oriundo de uma família de operários. Esta filiação ao lugar de origem, essa relação entre a autobiografia e objeto de estudo, foi extremamente proveitosa no caso de Hoggart, não lhe parece?


Chartier: Traduzido para o francês como “La culture du pauvre”, o livro de Hoggart é realmente maravilhoso, pois consegue articular elementos biográficos com uma reflexão profunda sobre a mídia voltada para as classes populares, neste caso a classe operária inglesa dos anos 1940 e 50. O principal propósito desse livro é questionar a idéia segundo a qual todos os leitores ou ouvintes das produções dessa indústria cultural acreditavam piamente em suas mensagens. Viveriam sob uma forma de alienação, submetidos aos modelos sociais que as mensagens dos “mass media” do tempo -rádio, cinema e revistas- impunham.

Hoggart queria mostrar que havia uma relação muito mais complexa, ambivalente, entre crer e não crer, aceitar a ficção e, ao mesmo tempo, ter a consciência de que se trata de um mundo irreal, um mundo de fábula, de ficção. A oposição entre nós e os outros era um elemento muito claro no livro de Hoggart, e a maneira como estabelece a relação entre história pessoal e discussão sociológica me parece muito justa e adequada.

Em Lyon, no entanto, não éramos uma classe operária no mesmo sentido de Hoggart. Vivíamos num mundo de artesãos que trabalhavam de uma maneira ou de outra na atividade dominante da cidade que é a seda. Havia algo como o que descreve Hoggart na relação com os horóscopos, com os diários de grande tiragem e as canções. Mas não havia apenas a circulação dos produtos culturais que descreve Hoggart, havia também um certo gosto por uma parte da cultura dominante. A ópera, por exemplo, era muito popular.

Na Lyon da minha infância ia-se à ópera como se ia ao cinema, duas, três vezes por semana. Era uma apropriação muito popular não de todo o repertório da ópera, mas principalmente da ópera italiana, de Verdi, dos franceses. Meu pai viu “Carmen” 25 vezes. Essa relação mudou entre os anos 1960 e 1970, quando este mundo dos artesãos foi gradativamente desaparecendo e, em seu lugar, surgiu uma fratura mais profunda entre o mundo dos que vão à ópera e o dos que gostam de outra forma de diversão.

Um aspecto que me pareceu interessante no livro de Hoggart é a importância que a literatura teve para a sua formação. Imagino que na França, onde a tradição literária é tão forte, uma formação baseada nessas leituras de mocidade deve influir na possibilidade de romper com o sistema da reprodução. Você não acha?

Chartier: De fato, na França, a literatura tinha muita importância na escola. Principalmente porque o currículo da escola primária utilizava para diversos exercícios pedagógicos fragmentos dos clássicos, de Victor Hugo, dos novelistas do século 19, como Alphonse Daudet. Dessa maneira, como a escola é obrigatória, cada um, até a idade de 14 anos, inclusive a gente das camadas mais populares, tinha uma relação direta, ainda que fragmentária, com esse corpus literário que define a literatura francesa.

Para os alunos dos liceus, havia também todo o repertório da literatura clássica do século 17: Corneille, Molière, Racine. Havia uma impregnação muito forte daquilo que, numa definição canônica, chamam de literatura. Não sei se isso ainda é assim hoje em dia, porque a escola primária ou secundária se desprendeu um pouco desse corpus canônico de textos e se abriu a autores contemporâneos.

A mídia também mudou muito. Recordo que nos anos 1960 havia somente uma rede de televisão que saía do ar às oito e meia da noite e onde se lia Corneille. Apresentar numa rede pública, com uma programação única para todos, às oito e meia, um texto clássico, é algo impensável hoje. Salvo nos canais particulares destinados a um certo público.

O mundo mudou profundamente no final dos anos 1960. 1968 foi um marco da ruptura cultural, não necessariamente no sentido que usualmente se pensa: de uma abertura, da quebra da autoridade, de formas mais abertas de comportamento. Mas o que também houve a partir de 68 foi o agravamento desse espírito de comercialização, com a destruição da dimensão cultural, por exemplo, da televisão.

Destruição no sentido de que não há apenas a possibilidade compartilhada por toda a gente de ver ou desligar a televisão. Agora há uma fragmentação infinita, há os canais para os que gostam de pop, para os que gostam de rock, da música clássica. É uma forma de fragmentação cultural que também se pode ver como uma forma de liberdade e de diversificação. Mas ao mesmo tempo, 68 marca também o desaparecimento de uma cultura compartilhada e arraigada numa referência como a literatura nacional e universal.

A minha geração foi, no Brasil, talvez a última em que a leitura dos clássicos da literatura universal era um hábito. Acho que isso criou um universo de referência para a nossa geração que é diferente dos jovens de hoje. De que maneira esse universo de referências culturais originadas da leitura dos clássicos está na base da visão de mundo do historiador de hoje em dia? Por outro lado, de que maneira esse universo de referência cultural mais ampliado contribuiu para a aceitação de abordagens interdisciplinares?


Chartier: Não devemos pensar que o passado era necessariamente melhor. Há autores que se especializaram nesse tipo de diagnóstico pessimista. Acho, ao contrário, que hoje se lê mais do que nos anos 1950. Inclusive porque o computador não é apenas um novo veículo para imagens ou jogos. Ele é responsável também pela multiplicação da presença do escritor nas sociedades contemporâneas. No computador tanto se pode lê os clássicos como publicações acadêmicas e revistas em geral. Podem não ser necessariamente leituras fundamentais, enriquecedoras, mas são leituras.

Não se pode dizer, portanto, que estejamos assistindo ao desaparecimento da cultura escrita. O problema é qual cultura escrita persiste. É difícil entender a articulação sempre instável entre as novas formas culturais, as novas preferências dos jovens e o que se mantém como uma referência fundamental. O fato de que os textos lidos pelos adolescentes no computador, suas leituras prediletas, não pertençam àquele repertório definido como literário não é necessariamente algo ruim. O problema está numa certa discrepância entre essa nova cultura e os modelos de referência que, a nosso ver, seriam mais consistentes e forneceriam mais recursos para a compreensão do mundo social, a compreensão de si mesmo e a representação do outro.

Para isto não tenho resposta, mas me parece que há duas posições que se deve evitar. Uma é a que considera que essa presença da literatura na realidade cotidiana pertence a um mundo definitivamente desaparecido. Não me parece um diagnóstico adequado, pois há, na atualidade, um esforço dentro da escola e fora da escola para preservar a cultura literária. O que torna difícil identificar esse esforço é que, se antes ele era evidente e se concentrava em algumas atividades, hoje ele se diversifica através, por exemplo, dos novos e variados meios de comunicação.

A outra posição é a dos que pensam que não há nada de proveitoso, útil ou fundamental nesse novo mundo. Postura que me parece muito inadequada quando pensamos nas possibilidades educativas criadas pelas novas tecnologias, nas diversas experiências para a alfabetização, para a transmissão do saber à distância.

Acho que é responsabilidade dos intelectuais, dos meios de comunicação, dos editores, assegurar a transmissão de um saber sobre o mundo, através de projetos que vinculem a dimensão estética ou a dimensão científica com a existência cotidiana. Para que as pessoas não sejam totalmente submetidas às leis do mercado, à incerteza ou à inquietude, o essencial é dar a cada um instrumentos que lhe permita decifrar o mundo em que vive e a sua própria situação neste mundo. Esse saber que pode vir da sociologia, da literatura, da história, possibilitaria a resistência às imposições dominantes que vêm de todas as partes: dos discursos ideológicos, das mensagens dos veículos de comunicação, da cultura de massa etc.

O que Hoggart descrevia em seu maravilhoso livro era a maneira como também podemos nos plasmar, nos construir através do conhecimento. Trata-se de uma experiência densa e forte que se pode obter através dos textos literários, do presente ou do passado, uma perspectiva que envolve tanto a transmissão da beleza, mas também uma dimensão crítica. Mas me parece que, se há um caminho não literário para se adquirir saber sobre o mundo social, por que procurar os instrumentos mais vulneráveis para decifrar esse mundo?

Apesar da valorização teórica que a moderna historiografia tem promovido da narrativa sempre vejo os historiadores a trabalharem ainda com um certo pudor, acompanhando cada fato narrado de uma análise minuciosa daquele aspecto ou então recorrendo ao chamado argumento de autoridade. Parece-me que isso prejudica o resultado do ponto de vista da narrativa, pois, em geral, a torna fragmentada e desinteressante. O que você acha?

Chartier: Entre os anos 1950 e 60, os historiadores buscavam uma forma de saber controlado, apoiado sobre técnicas de investigação, de medidas estatísticas, conceitos teóricos etc. Acreditavam que o saber inerente à história devia se sobrepor à narrativa, pois achavam que o mundo da narrativa era o mundo da ficção, do imaginário, da fábula. Desta perspectiva os historiadores rechaçaram a narrativa e desprezaram os historiadores profissionais que seguiam escrevendo biografias, história factual e tudo isso. A tradição francesa dos Annales foi uma das que levou mais longe essa tendência.

Hoje, no entanto, a situação tornou-se muito mais complicada. Uma das razões é que autores como Hayden White e Paul Ricoeur mostraram que, mesmo quando os historiadores utilizam estatísticas ou qualquer outro método estruturalista, produzem uma narrativa. Quer dizer: quando dizem que tal coisa é conseqüência ou causa de outra, estabelecem uma ordem seqüencial, se valem de uma concepção da temporalidade, que é a mesma de uma novela e de um relato historiográfico.

Ao mesmo tempo, entidades abstratas, como classes, valores e conceitos, atuam no discurso dos historiadores quase como personagens, havendo toda uma forma de personificação das entidades coletivas ou abstratas. Dessa forma o historiador não pode evitar a narração, inclusive quando a rechaça conscientemente. Pois a escrita da história por si mesma, pela maneira de articular dos eventos, pela utilização da noção de causalidade, trabalharia sempre com as mesmas estruturas e com as mesmas figuras de uma narrativa de ficção.

É a partir desse parentesco entre a narrativa de ficção e a narrativa histórica que se coloca a questão: onde está a diferença? Alguns críticos pós-modernos adotaram um relativismo radical e decidiram que não havia diferença e que a história era ficcional não apenas no sentido da forma. Ou seja: não diziam que não há verdade na história, mas que a verdade do saber histórico era absolutamente semelhante à verdade de uma novela.

Outros historiadores, dentre os quais eu me insiro, acreditam que há algo específico no discurso histórico, pois este é construído a partir de técnicas específicas. Pode ser uma história de eventos políticos ou a descrição de uma sociedade ou uma prática de história cultural, para produzi-la o historiador deve ler os documentos, organizar suas fontes, manejar técnicas de análise, utilizar critérios de prova. Coisas com as quais um novelista não deve se preocupar.

Portanto, se é preciso adotar essas técnicas em particular, é porque há uma intenção diferente no fazer história: que é restabelecer a verdade entre o relato e o que é o objeto deste relato. O historiador hoje precisa achar uma forma de atender a essa exigência de cientificidade que supõe o aprendizado da técnica, a busca de provas particulares, sabendo que seja qual for a sua forma de escrita esta pertencerá sempre à categoria dos relatos, da narrativa.

Alguns historiadores decidiram então que não valia à pena lutar contra algo inevitável e passaram a utilizar-se dos recursos mais persuasivos da narrativa a serviço de uma demonstração histórica. Adotaram formas de narrativa que permitiam assegurar, digamos assim, a mise-en-scène da prova. Historiadores como Carlo Ginzburg utilizam técnicas de narração que são até mesmo mais cinematográficas do que propriamente novelescas. Outros entrecruzam diversas histórias de vida.

Acho que a situação atual não é a de uma oposição absoluta entre a narrativa como ficção e a história como saber, mas de um saber que se escreve através da narrativa e daí ser necessária uma reflexão sobre que tipo de narrativa adotar. Uma narrativa onde se respeite o discurso do saber, mas que, ao mesmo tempo, seja atrativa para um público de leitores. Não é uma tarefa fácil, mas há exemplos que demonstram que pode ser feito.

Talvez aqui se possa colocar também a questão do talento do narrador. Alguns livros de história, como os de Robert Darnton, Nathalie Zemon Davies e Michel Volvelle, são bem escritos, agradáveis de ler...

Chartier: É uma questão de talento, sim, mas também do campo de investigação. Penso que há formas de saber nas ciências humanas e sociais que são absolutamente fundamentais, mas que não podem se apresentar através de maneiras tão sedutoras ou mesmo que não pretendem necessariamente encontrar um grande público.

Se alguém trabalha, por exemplo, sobre técnicas arqueológicas na Mesopotâmia antiga ou sobre algum tema da história econômica mais difícil, evidentemente os critérios de cientificidade exigidos para a realização do trabalho o afastam de um formato mais sedutor e fácil para os leitores. Se alguém trabalha, por exemplo, sobre a filologia grega, estabelecendo o texto de uma tragédia de Sófocles, é uma contribuição fundamental para o conhecimento, mas não vamos pensar que vá vender 100 mil exemplares.

Digo isso porque me parece que na França, particularmente, após o sucesso de livros como o “Montaillou”, de Le Roy Ladurie, fixou-se a idéia de que toda a obra de história deveria necessariamente atrair um grande público. A partir daí as editoras passaram a privilegiar os livros que tratavam de temas que estivessem na moda, adotando uma atitude de desprezo para com trabalhos mais modestos ou difíceis.

Por um lado é muito bom pensar que o historiador não deve permanecer em sua torre de marfim, que assim está fazendo algo útil ao fornecer um instrumento crítico ao público para pensar seu passado coletivo e seu mundo contemporâneo. Mas isto se torna perigoso quando a busca pelo êxito afasta o historiador dos objetos ou critérios próprios da prática científica.

O importante é estabelecer formas de mediação. Atualmente, junto com Michèlle Perrot e Jacques Le Goff, ocupo-me de um programa de rádio em Paris, “Les matins de France culture”, onde discutimos livros que dificilmente podem encontrar um grande público. Mas, se há a mediação, o público pode ter idéia do progresso do saber. Isso é um exemplo do que considero uma forma mediatizada de conhecimento.

Há algum tempo fiz a resenha de um livro de ensaios do antropólogo James Clifford. Tive uma certa sensação de desconforto diante de leitura pós-moderna e desconstrutivista que ele faz da tradição etnográfica. A etnografia foi um instrumento criado pela cultura ocidental para entender pessoas de outras culturas, não significando que aquelas pessoas tivessem a mesma ânsia de nos entender ou de entenderem a si mesmas, ou, ainda, que achassem que a etnografia seria a ferramenta adequada para isto. Cada cultura tem os seus próprios meios de se relacionar com o mundo. A meu ver, sempre se parte de uma base histórica, ideológica ou cultural para fazer alguma coisa, para pensar ou para agir. O pós-modernismo foi um exercício de desconstrução da cultura ocidental, e nossa base é o universo de informações que compõem a cultura ocidental. Ela é que nos fornece os instrumentos e a motivação para pensarmos sobre nós e sobre o mundo. E até para fazer a crítica dessa maneira de pensar.

Chartier: Penso que, em certo sentido, o trabalho de James Clifford está em paralelo ao de Hayden White. Acho que é algo legitimo fazer historiadores e antropólogos refletirem sobre a própria escrita. Durante muito tempo a escrita foi vista como um meio neutro para falar sobre o passado ou para descrever o outro. Daí ter sido fundamental fazer dela um objeto de reflexão, tal como fez White, ao pensar sobre o papel, na escrita do historiador, de elementos como a retórica e as figuras que se manejam para escrever sobre o passado. O mesmo fez James Clifford com relação aos dispositivos que os antropólogos utilizam em seu trabalho.

Outra contribuição fundamental dessa corrente foi a idéia de que há uma descontinuidade necessária entre o presente e o passado, ou entre o antropólogo e o outro, a qual não pode ser anulada pela idéia de universalidade e de compreensão de si próprio. Tal concepção se apóia sobre o conceito de descontinuidade de Foucault, que demonstrou que existe ruptura em conceitos como de loucura, medicina, clínica e sexualidade. Essa atitude proporciona uma consciência dos limites da utilização de técnicas de investigação ou de observação. Supõe também uma forma de ética na investigação, no encontro com o outro, do passado ou de hoje.

Mas tanto no texto de White quanto no de Clifford há um relativismo absoluto. Não posso aceitar a idéia que está identificada com o pós-modernismo de que todos os discursos são possíveis porque remetem sempre à posição de quem o enuncia e nunca ao objeto. De acordo com essa visão, o discurso é sempre autoproduzido: não diz nada sobre o objeto e diz tudo sobre quem o escreveu.

Parece-me uma conclusão equivocada, a partir de premissas interessantes, porque, tanto no caso da história quanto no da antropologia, uma produção de saber é possível e necessária. É também uma perspectiva que se vale dos argumentos do politicamente correto, assumindo-se como a forma de respeitar o outro, aquele que está absolutamente desconhecido, conservando-lhe a identidade própria.

Esta justaposição de situações históricas ou situações antropológicas onde não existe nenhuma comunicação, nenhum intercâmbio, nem sequer de saberes, parece uma forma terrivelmente reducionista daquilo que poderia ser um projeto de conhecimento compartilhado. Razão pela qual estou completamente em desacordo com essa postura pós-moderna, essa idéia de que não há nenhuma possibilidade de conhecimento.

É diferente dizer que esse conhecimento sempre esteve organizado a partir dos esquemas de percepção, de classificação e compreensão do observador. E que, se existem formas de descontinuidade culturais, é preciso, assim mesmo, fazer um esforço para entender o passado e o outro. Pois foi a partir dessa dupla perspectiva que se construiu um saber, e me parece que os trabalhos fundamentais da história e da antropologia demonstram que este saber não só é possível como também pode ser oferecido ao outro para conhecimento de si mesmo -para fazer com que o objeto do saber possa transformar-se em seu próprio manufator, não dependendo apenas do conhecimento produzido pelo antropólogo ou historiador.

Parece-me que, assim, temos a circulação da força crítica do saber. Se isso for destruído, cai-se num relativismo absoluto. O que me parece seria uma conclusão trágica e ao mesmo tempo muito ideológica.

Neste momento temos a sensação de que tudo se tornou possível: práticas que haviam sido banidas por um conjunto de acordos internacionais no pós-guerra vêm sendo implementadas pelos EUA na guerra no Iraque ou ao manterem pessoas presas sem julgamento em Guantânamo. Ao mesmo tempo, ocorre a perda de força de organismos internacionais, como a ONU. Na medida em que sabemos que as grandes idéias são filtradas e incorporadas à agenda do senso comum, a perspectiva radicalmente relativista do pós-moderno não teria influído de alguma forma nesse tipo de política, esvaziando a confiança em algumas conquistas do humanismo e da cultura do Ocidente?


Chartier: O maior paradoxo do pós-modernismo é que nasce de uma perspectiva crítica das autoridades, das hierarquias e dos elementos dominantes, mas, com a introdução da dimensão epistemológica do relativismo, a análise fica sem nenhum recurso para fundamentar esta postura crítica. Pois, se tudo é possível, todos os discursos podem ser diferentes por sua competência retórica, por sua arte de expressão, mas em termos de saber e como instrumento crítico não há diferença entre eles. Cria-se uma tensão fundamental.

Hayden White, por exemplo, é um humanista que compartilha os valores morais do humanismo. Mas a aplicação de sua perspectiva não dá à história instrumentos para produzir um conhecimento crítico, desmentir as falsificações e estabelecer um saber verdadeiro. Porque, se não há nenhum critério para estabelecer diferenças entre os discursos dos historiadores, torna-se muito difícil criticar os discursos enganosos, as falsificações e as tentativas de reescrita do passado. Este é, me parece, o grande limite do pós-modernismo: a contradição entre sua intenção e a sua epistemologia.

Em seu livro “O grande massacre dos gatos”, Robert Darnton adota as idéias e os métodos de Clifford Gertz, dando tratamento etnográfico a um objeto de estudo histórico. Esse foco ampliado sobre um detalhe me parece produzir uma visão distorcida do objeto. De que forma você vê esse tipo de investigação?


Chartier: Houve um grande debate depois da publicação do livro de Darnton. Uma das críticas mais fortes feitas a ele tem a ver com a sua identificação com as idéias de Geertz e de sua tendência à textualização das estruturas, das práticas rituais e de toda a cultura. O ponto de partida de Darnton, utilizando a idéia de Geertz de que um rito pode ser lido como um texto, era que se podia pensar as práticas sociais como se fossem textos.

Em “O grande massacre dos gatos” as fontes de que Darnton se vale são, sobretudo, textuais. Os historiadores que trabalham com textos desenvolvem, em primeiro lugar, uma análise crítica do texto. No entanto, Darnton quase não avança nessa direção. Para tratar o rito como texto há como que uma supressão do texto em que o rito está narrado. Quando se analisa meticulosamente aquele trabalho surge um problema: não se pode dizer se a matança é imaginária ou real, se teria ocorrido realmente. Ele menciona o texto de um artesão, mas não lhe dá maior importância, porque pretende se colocar imediatamente na situação de um espectador do massacre. Como Geertz em Bali.

Não podemos pensar que há uma identidade necessária entre a lógica propriamente textual e as estratégias das práticas. Foucault estudou em seus livros a tensão entre as séries discursivas e os sistemas não-discursivos. Michel de Certeau plasmou isto na tensão entre as estratégias discursivas e as táticas de apropriação. Bourdieu refletiu sobre as razões escolásticas e o sentido prático. Nesses três casos de vocabulários teóricos diferentes o que há em comum é a diferenciação entre a lógica da produção textual ou da decifração de um texto utilizando as escritas e as práticas ou estratégias de outras formas de construção, que são as práticas cotidianas, habituais etc.

Isto está em oposição à idéia de Geertz que parece querer ver todas as práticas do mundo social como se fossem textos decifráveis. O mais complicado para o historiador é que essas práticas não-textuais, em geral, se encontram através de textos. O desafio fundamental para o historiador é entender a relação entre os textos disponíveis e as práticas que estes textos proíbem, prescrevem, condenam, representam, designam, criticam etc. O essencial é pensar a irredutibilidade entre a lógica da prática e a lógica do discurso que, tal como dizia Bourdieu, não se podem confundir.

As práticas do passado são acessíveis a nós, em geral, através de textos escritos. E o historiador escreve sobre essas práticas. Ao descrevê-las o historiador tem que ter claro que a operação da escrita não cria uma forma de relação particular com essas práticas, que se tornaram conhecíveis através de sua mediação. O desafio fundamental é pensar conceitual e metodologicamente a articulação e a distância entre as práticas e os discursos e evitar a repetição daquele momento, entre os anos 1950-60, em que a metáfora do texto se aplicava a tudo: aos ritos, à sociedade etc. Era muito cômodo.

Então qualquer documento que não seja escrito, que não seja texto, coloca para o historiador esse tipo de problema. Tal é o caso dos que trabalham com imagens -objeto que não é possível enfrentar através de métodos ou regras muito esquemáticos, não lhe parece?


Chartier: A imagem é um exemplo magnífico para pensar o que dissemos, pois não é uma prática disseminada, é silenciosa, não é sequer um texto. Creio que querer analisá-la como texto é uma perspectiva teoricamente equivocada, porque a lógica de construção da imagem ou de decifração da imagem não é a mesma do texto. Parece-me que a lógica gráfica e a lógica textual não se identificam.

A lógica textual é necessariamente uma lógica linear, a escrita se descreve através de ordem seqüencial. E a leitura, inclusive quando se vai de um fragmento a outro, é uma leitura seqüencial. A observação de um quadro não está organizada segundo esta ordem seqüencial. É algo com uma lógica própria e que não se identifica com a lógica textual. Há uma questão de diferentes planos, de diferentes entradas.

Para restituir a lógica na decifração da imagem, o historiador necessariamente deve manejar a ordem seqüencial ou linear da escrita. O resultado desse esforço é uma tensão. O que não significa ser essa uma tarefa impossível, mas que é preciso estar consciente de suas dificuldades. Meu amigo Louis Marin, cuja obra admiro, construiu uma argumentação a propósito de como fazer textos com imagens. Ele cita como exemplo “Os salões”, artigo em que Diderot transforma um quadro em texto para criticá-lo. E toda a crítica estética supõe essa operação de fazer textos com imagens.

O contrário disto, fazer imagens a partir de textos, é o princípio de toda a iconografia cristã. Textos se transformam em imagens, e vice-versa, mas nunca são idênticos entre si, pois há toda uma série de interpretações, mediações, apropriações. É possível utilizar a metáfora da imagem como texto, ou da observação como leitura. Porém deve-se ter consciência de que é apenas uma forma de falar, que não há uma adequação lógico-teórica entre os dois documentos e que nunca se dissolve a irredutibilidade da diferença.

Uma demonstração perfeita desta irredutibilidade verificou-se quando alguns poetas tentaram romper com essa lógica linear e seqüencial e apresentaram o texto escrito como se fosse um grafismo, com uma forma em que se podia entrar no texto de maneira diversa, sem a imposição da ordem linear da escrita. Foi um esforço para fazer com que a escrita fosse mais identificada pela sua forma gráfica do que por seu conteúdo semântico. A meu ver as questões relativas a imagens estarão sempre trafegando entre o espaço que vai da crítica textual à crítica estética.

Uma outra questão é a do estilo, da retórica no texto de história. Por exemplo, o tratamento irônico do problema, tal como você identificou em Hayden White.


Chartier: Quando Hayden White descreve as quatro figuras retóricas que seriam sempre utilizadas pelos historiadores, inclui, ao lado da metáfora, da sinédoque e da metonímia, a ironia como uma forma de escrita histórica que se pode utilizar inclusive para temas que não tem a ironia como objeto. Não conheço muitos historiadores que tenham empregado esse recurso para escrever textos de história, talvez por causa da tensão que o uso da ironia provoca no texto.

Creio que fazer rir era a idéia de Darnton em “O grande massacre dos gatos”, ao divulgar o texto sobre aqueles artesãos para os quais era muito divertido matar gatos. Em todas essas obras verificamos que estamos diante de uma descontinuidade. Os dispositivos, os temas, as formas, os gêneros que, em um dado momento, provocam o riso ou o sorriso são historicamente definidos.

Ao mesmo tempo, se podemos entender porque esse fato fazia rir à gente do Renascimento é porque há continuidade suficiente para que os outros aspectos sejam percebidos, entendidos e compreendidos. E o que mais temos discutido com o pós-modernismo é sobre a necessidade de reconhecer as descontinuidades históricas sem cair no relativismo que estabelece que não há relação possível através de uma distância profunda e que assim é impossível qualquer compreensão do outro.

Ultimamente, aqui no Brasil, têm circulado na internet textos falsamente atribuídos a escritores e jornalistas célebres. São textos que têm uma certa identidade com o estilo do suposto autor, mas que são renegados com indignação. Já houve também casos de textos atribuídos a Jorge Luís Borges e a Gabriel García Márquez, que, depois de muito terem rodado na rede, os especialistas negaram ser deles. Que outros problemas para a questão da autoria a internet provoca?

Chartier: Trata-se de uma atitude inversa à do plágio, que é roubar um trabalho e assiná-lo, enquanto aqui se rouba o nome de alguém para por no seu próprio texto. Mas este não é um fenômeno diretamente vinculado à internet. Esta apenas modificou a forma de circulação dessas falsificações.

Lope de Vega, por exemplo, em pleno século 16, se queixava que outros dramaturgos utilizavam seu nome para vender comédias muito ruins que ele nunca havia escrito. Para se proteger, ele divulgou uma lista com todas as suas obras, que eram muitas, cerca de 450, pois ele era muito prolífico.

No mundo da imprensa e da representação teatral essa apropriação do nome pode ter diversos fins, no caso de Vega servia para vender as comédias. Pode também servir para pensar em si mesmo como capaz de escrever um texto de Borges. No caso de Borges, parece um fenômeno bem-vindo, uma vez que ele escreveu muitas obras assinadas com nomes que não eram o seu, como se tivessem sido escritas no século 18.

O copyright se baseia na idéia de que o texto é uma criação, uma parte do indivíduo, expressão de seus sentimentos, de sua linguagem. A relação entre o texto e a subjetividade, a idéia de que o texto é uma projeção do indivíduo tendo como conseqüência econômica a propriedade do texto surge a partir da metade do século 18. O problema da circulação textual em forma eletrônica, quando não há formas de se fechar o texto, é que ela criou dificuldades para os direitos de propriedade literária. Cada texto pode ser alterado pelo leitor e enviado pela internet. Essa maleabilidade do texto na forma eletrônica tornou difícil proteger o direito de propriedade literária.

Foucault apresentou na sua conferência inaugural do Collège de France a idéia de um mundo textual sem apropriações, sem nome, feito de ondas textuais que se sucediam, onde cada um poderia escrever suas palavras em um discurso já existente. Era um paradoxo, porque ele apresentava seu sonho de uma textualidade coletiva, indefinida, a partir da posição mais individualizada, a mais prestigiosa da universidade francesa. De certa forma a internet permite aos autores que realizem esse sonho à medida que deixa o texto aberto às escritas, apropriações e alterações. Mas há aqueles fiéis ao século 18 que reivindicam a propriedade literária e a identidade da autoria.

Um tema que vem sendo discutido nos EUA é a forma de impedir que o texto seja transformado, copiado ou impresso. Trata-se de uma questão complicada porque a única maneira de solucioná-la é fechando os textos. E isto é um paradoxo, pois a invenção da internet deu-se justamente para facilitar o acesso aos textos.

Este foi o problema dos e-books, um texto pelo qual se pagava, mas que não se podia alterar, copiar ou imprimir. Protegia os direitos do editor ou do autor, mas não fez sucesso porque o que torna essa nova tecnologia textual tão atraente é justamente a liberdade, a mobilidade. Todas as invenções que vêm no sentido de constranger essa liberdade são consideradas violências contra as novas tecnologias.

A mesma discussão acontece no meio das publicações científicas. Há revistas eletrônicas que querem proibir o acesso gratuito e a possibilidade de cópia dos artigos publicados. E há comunidades investigadoras que afirmam, à maneira de Condorcet no século 18, que o saber é algo que não pode ser apropriado, pois é útil para o progresso da humanidade.

Algumas comunidades investigadoras na área de biologia, por exemplo, tentam criar uma forma de difusão dos resultados fora do controle econômico das revistas, cuja assinatura pode chegar a US$ 8 mil ou mesmo a US$ 12 mil. É uma questão que ainda está para ser resolvida: a internet como uma textualidade livre e móvel ou como forma de publicação segundo os mesmos critérios jurídicos e estéticos da publicação impressa.

Um controle difícil de obter, pois a indústria fonográfica está perdendo essa guerra…


Chartier: Mas a diferença é que a estrutura do livro impresso impõe o texto ao leitor sem que ele possa modificá-lo. Mesmo que se escreva nas páginas em branco, há o reconhecimento da autoria e que isto implica em direitos econômicos e morais. Mas o texto eletrônico é um texto aberto, no qual é possível interferir. É uma grande diferença.

A outra grande diferença é que no mundo do texto impresso há uma correspondência entre o tipo de publicação e o tipo de textos que se publica nela. Uma revista não é um jornal, que não é um livro, que não é um documento oficial, que não é uma carta. Há uma hierarquia de objetos que correspondem a uma diferenciação na taxonomia do texto. O computador quebra isso.

A partir do momento em que o mesmo aparato, na mesma forma, dá a ler todos os tipos de discursos em termos de gênero, da carta ao livro, ou em termos de autoridade, é mais difícil para o leitor que não está preparado fazer a diferenciação imediata -que está muito mais evidente no material impresso.

Uma vez que todos os gêneros de textos, desde os mais íntimos aos mais públicos, se dão a ler de uma forma quase idêntica sobre o mesmo aparato, há uma ruptura muito grande na maneira de entrar ou de conceber ou de manejar o mundo dos textos. Para o melhor ou para o pior.

Para o melhor, porque permite esta proximidade entre os textos, porque há uma circulação textual que não é simplesmente a mobilidade de cada texto separadamente, senão a mobilidade textual, que seria uma forma de invenção e renovação. Para o pior, quando pensamos nos que negam a existência das câmaras de gás.

Se alguém busca informações sobre o Holocausto no mundo da cultura impressa ou se, ao fazer um trabalho para a escola, consulta enciclopédias, livros de história, revistas reconhecidas, não terá tanto contato com a propaganda dos negacionistas, que é totalmente marginalizada. Em muitos países ela está proibida ou só existe em revistas que não se encontram facilmente. Assim, as informações sobre o Holocausto serão obtidas em textos mais ou menos controlados.

Um jornalista fez a mesma investigação sobre o Holocausto na internet e encontrou uma enorme quantidade da propaganda negacionista, revisionista, apresentada com todas a aparência de texto científico. Se o leitor não está preparado para estabelecer a diferença que já foi estabelecida na cultura impressa por meio do formato editorial ou das comunidades cientificas, há um risco de confusão entre o que é informação e o que é saber. É informação conhecer toda essa propaganda revisionista, mas não é saber. É o contrário do saber, é a falsificação da verdade.

A grande dificuldade é como controlar, como estabelecer critérios para isto. Quem vai estabelecer?

Chartier: Voltamos ao nosso primeiro tema de discussão. Não se trata de censura, mas de como reconhecer a autoridade científica. Não autoridade no sentido canônico, e sim a autoridade que se afirma através da evidência, da prova. Os textos que descrevem uma realidade histórica não têm autoridade científica equivalente. É através disto que podemos reconhecer a diferença entre um texto dos revisionistas que inventaram que as câmaras de gás nunca existiram, que nunca aconteceu o massacre de milhões de judeus, e um texto de um historiador que se pode encontrar em uma enciclopédia, em livros de divulgação e que estabeleceu uma percepção adequada do acontecimento.

O que digo é que este diferencial de credibilidade científica era estabelecido no mundo impresso a partir das diferenciações editoriais entre os tipos de publicações e as formas do discurso. A gente podia dar mais crédito a um livro publicado por uma editora reconhecida por sua exigência que a um artigo de periódico ou a uma carta privada. Essa operação não é impossível com o texto eletrônico. Ela se tornou mais difícil.

Talvez porque credibilidade é uma coisa que se conquista com o tempo. É como o prestígio de algumas universidades e o descrédito de outras. Dentro da internet ainda não houve tempo para criar portais em que o usuário possa dizer com toda convicção: neste eu posso confiar.


Chartier: De fato, é preciso dar aos usuários da internet instrumentos críticos para entender como os textos foram construídos, para avaliar o grau de seriedade de cada local. Não podemos minimizar o significado da ruptura de um mundo onde objetos e textos estão vinculados através de materialidades múltiplas com um mundo em que a mesma superfície iluminada do monitor dá a ler todos os gêneros textuais. A reflexão sobre essas transformações muda a percepção dos textos e de suas diferenças.

Há uma descontinuidade com a leitura com que estávamos familiarizados e isto implica na transformação da relação fundamental com algo que continua a ser um texto, mesmo que em diferentes formas. A leitura eletrônica é uma leitura da fragmentação, dos extratos de livro, sem que se saiba nada sobre a totalidade da qual se extraiu aquele fragmento, pois o fragmento eletrônico não mantém nenhuma ligação com o texto que garantia o conhecimento da totalidade. O problema é saber se a internet pode superar a tendência à fragmentação.

Você já orientou muitos brasileiros. Ao longo desse tempo você leu muito sobre o Brasil nas teses desses orientandos. A partir dessas leituras como você vê o Brasil?


Chartier: Acho que há aqui uma circulação entre os campos disciplinares da antropologia, da história e da sociologia cultural mais forte que em outros lugares. O campo da educação, por exemplo, que em muitos países é muito especializado, aqui me parece estar bastante integrado ao mundo das ciências sociais. A maior parte dos trabalhos que orientei tratam de uma forma ou de outra do mundo das práticas culturais, da história da publicação e da circulação dos textos e um pouco também do mundo social, da história da vida privada, das estruturas sociais do Brasil colônia.

Há uma vitalidade impressionante nesse tipo de investigação. O problema é que na Europa ou nos Estados Unidos existe uma total falta de interesse por outros territórios. Todo mundo está muito preso a seu próprio campo de investigação e não se dá conta de que é possível aprender muito com estudos sobre temas que não são os seus. Isso impede que circulem numerosos trabalhos que mereceriam ter um reconhecimento mais forte.

Para divulgar esses trabalhos que têm uma força metodológica ou teórica inspiradora, seria preciso fazer com que editoras norte-americanas traduzissem obras latino-americanas para o público que não lê em espanhol. Pode-se perceber nas referências bibliográficas de trabalhos realizados na Europa e nos EUA que muitas obras latino-americanas não estão em inglês, salvo trabalhos de autores americanos e ingleses sobre o Brasil.

Tradução de Ana Carolina Delmas

Isabel Lustosa é cientista política, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e autora de "Insultos Impressos – A Guerra dos Jornalistas na Independência" (Companhia das Letras, 2000).


Retirado de http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2479,1.shl

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